Hospitalização e individuação: um estudo de caso.

Renata Pires da Silva Sanfelice

Jung

Hospitalização e individuação: um estudo de caso.

Hospitalization and individuation: a case study.

Renata Pires da Silva Sanfelice* Cristina Accioly Nunes1

Instituto Ânima de Estudos Junguianos – Ribeirão Preto – SP – Brasil

RESUMO O presente trabalho procurou apresentar, por meio de um estudo de caso, a vivência de um paciente com seu processo de individuação durante internação hospitalar. O referencial teórico da psicologia analítica foi utilizado para embasamento desse trabalho, entendendo o processo de individuação e a religiosidade, preconizados por Jung, como fundamentais no processo de ampliação de consciência e na busca de sentido para a vida, acarretando maior bem estar mental e espiritual. O adoecimento do paciente, decorrente de um trauma raquimedular, a longa permanência no hospital, o acompanhamento psicológico e sua relação com a religiosidade, iniciada por influência do contato com uma irmã, foram essenciais para que ele pudesse refletir sobre sua vida, possibilitando seu amadurecimento psíquico e, consequentemente, preparando-o para a morte. Palavras-Chave: Hospitalização. Psicologia Analítica. Individuação. Espiritualidade. Morte.

ABSTRACT

The present study tried to present, through a case study, the experience of a patient with his process of individuation during hospitalization. The theoretical framework of analytical psychology was used to support this study, understanding the process of individuation and religiosity, recommended by Jung, as fundamental for the expansion of consciousness and the search for meaning, resulting in mental and spiritual well-being. The patient's illness, resulting from spinal cord trauma, the long stay at the hospital, psychological monitoring, and his relationship with religiosity, influenced by the contact with a sister, were essential for him to reflect about his life, enabling his psychic maturation and, consequently, preparing him for the death. Keywords: Hospitalization. Analytical Psychology. Individuation. Spirituality. Death.

INTRODUÇÃO

O adoecimento e a hospitalização, por si sós, podem desencadear uma crise no ser humano, com sentimentos negativos como medo e insegurança. Nos acometimentos que comprometem aspectos físicos, como a paraplegia, é preciso que o indivíduo tenha umacompreensão das modificações corporais que serão permanentes e que acarretarão também alterações na experiência pessoal. Kast(1) entende que no ápice de uma crise, em sua essência como restrição e como aguçamento, encontramos um núcleo que aponta parauma ruptura e travessia: na crise podem ser experimentadas novas possibilidades de vidae novas qualidades de vivência, ou então pode se dar uma derrocada geral, da qual muitas vezes se busca uma saída pela morte.

Nesse estado crítico, pode ocorrer uma desvinculação ou alienação do ego, o centro da consciência e o Self, o centro psíquico total, ou seja, consciente e inconsciente. No estado de alienação, o ego não só perde identificação com Self - o que é desejável como também se desvincula do Self, o que é deveras indesejável. De acordo com Edinger(2), a conexão entre o ego e o Self é de vital importância para a saúde psíquica, pois proporciona fundamento, estrutura e segurança ao ego, além de fornecer a este último energia, interesse, significado e propósito. Kast(1) afirma que a situação emocional de opressão, por assim dizer, centra-se num problema que carrega consigo tanto um aspecto inibitório quanto um aspecto evolutivo; assim, os componentes da vida que carecem de elaboração e que têm que ser integrados junto com os problemas que os acompanham, são vivenciados de forma muito mais aberta do que em situações com menor grau de pressão.

Contudo, a permanência no hospital pode ser uma oportunidade para refletir e ressignificar a própria história, favorecendo e até mesmo acelerando a ampliação de consciência. Von Franz(3) refere que cada experiência de perda na vida é uma possibilidade de descobrir o Self e a ordem espiritual a qual pertencemos, pois quando conseguimos compreender o sentido de cada arrebatamento, vivenciamos uma experiência divina.

Nesse sentido, o processo de individuação, que é tema central da Psicologia Analítica, se relaciona com o caso vivenciado, pois se refere ao processo de tornar-se diferenciado em sua singularidade, com a aceitação de suas potencialidades e dificuldades. Jacobi(4) entende que o processo de individuação representa uma confrontação dialética entre os conteúdos do inconsciente e os da consciência, em que os símbolos formam as pontes necessárias para conciliar as oposições, aparentemente irreconciliáveis. Hall(5) complementa que uma das possibilidades de desenvolver a individuação é a análise, processo de autorreflexão e compreensão que possibilita uma vida mais profunda e cheia de significados.

Dentro desse processo reflexivo, tanto a religiosidade quanto a espiritualidade podem se tornar elementos importantes na elaboração das questões relativas ao sentido da vida. Para Peres(6), a religiosidade, com suas crenças e práticas, como ritos, cultos e outras formas de expressão, constituem uma parte importante da cultura, mas também tem relevância na subjetividade humana, pois pode mobilizar a esperança e favorecer a saúde mental. Silva e Silva(7), por sua vez, compreendem a espiritualidade como um sistema de crenças que engloba elementos subjetivos, que transmitem vitalidade e significado a eventos da vida; trata-se de uma dimensão constitutiva do homem, caracterizada pela intimidade do ser humano com algo maior.

Sendo assim, pode-se afirmar que a religiosidade, entendida a partir de uma doutrina ou como espiritualidade, traz importantes implicações para o processo de individuação. Hall(5) refere que na visão junguiana, o problema religioso não designa dificuldades em questões doutrinais, mas, em um problema de sentido, de entender o propósito da vida e de encontrar uma razão para viver.

O presente estudo de caso tem o objetivo de apresentar a experiência da autora em sua prática enquanto psicóloga hospitalar no acompanhamento de um paciente internado em um hospital no interior do estado de São Paulo, e desse modo contribuir para a atuação de profissionais que trabalham na área hospitalar e clínica, ao ampliar a compreensão desse fenômeno. Com intuito de manter a proteção e o sigilo, o participante será denominado de “paciente” justificado pela própria condição da sua permanência dentro do hospital durante os atendimentos.

O embasamento teórico utilizado para a compreensão desse trabalho é o paradigma da Psicologia Analítica. Para Samuels(8), a tarefa primordial da psicoterapia é perseguir com coerência de propósito, a meta do desenvolvimento individual. Segundo Hall(5), o curso da análise, assim como o curso da própria vida, encontra-se em contínua transformação, que ocorre de acordo com a emergência imprevisível de novas e diferentes formas de ser. Nesse sentido, na concepção junguiana, a vida do paciente é o próprio centro de atenção na análise, pois só o paciente pode saber como se sente.

HISTÓRICO HOSPITALAR

Trata-se de um paciente do sexo masculino, 46 anos e que chega para a internação em abril de 2015 depois de sofrer queda, com diagnóstico de trauma raquimedular. Após longo período de permanência na UTI, cerca de 3 meses, em que foram realizados diversos procedimentos e cirurgias em decorrência da lesão medular, paciente teve boa evolução e foi para a enfermaria. É importante ressaltar que durante sua permanência na UTI, não houve visita de familiares. Quando foi para a enfermaria, a visita dos familiares permanecia inexistente até que em agosto de 2015 a equipe de enfermagem realizou uma solicitação de interconsulta para a psicologia.

Na solicitação, constava que paciente estava inapetente e com humor deprimido, o que foi confirmado pela avaliação psicológica. Ao acessar o prontuário, foi verificado que o paciente fazia uso de antidepressivos e já havia passado por diversas avaliações da psiquiatria, que não estavam se mostrando suficientes para o caso.

No primeiro contato com o paciente, era possível observar seu humor deprimido, que refletia na sua inapetência e até mesmo na sua falta de vontade de beber água. Era como se seu desejo fosse de encurtar o tempo de vida. Nesse primeiro encontro, o paciente mostrou-se bastante desconfiado, pouco aberto, porém bastante educado. Após alguma insistência, aceitou beber água para se hidratar e permitiu o retorno da profissional para uma segunda visita, indicando uma possível abertura para esse encontro analítico.

Ainda nos primeiros atendimentos, a relação se estabelecia no sentido de incentivar o paciente a se alimentar. A dependência física ocasionada pela paraplegia também era tratada nos encontros, pois paciente se queixava sobre a sua dependência para com a equipe de enfermagem. Esse aspecto inicial foi trabalhado, possibilitando uma aceitação maior do paciente sobre suas novas limitações, o que acarretou também no desenvolvimento do processo terapêutico.

Com isso, o paciente foi aos poucos se abrindo e revelando um pouco de sua história: familiares moravam no interior do estado do Paraná, mas há muito tempo não tinha contato com ele. Revelou que sofreu queda após escorregar de cima de um abacateiro. Estava separado da esposa e tinha duas filhas de 17 e 21 anos de idade, mas não falava com elas há vários anos. Embora verbalizasse pouco - talvez pela dificuldade de vocalizar por conta da traqueostomia* - era possível observar em seu olhar um aspecto de profunda tristeza.

O serviço social averiguou que a família do paciente não tinha interesse em visitálo, pois sempre “deu muito trabalho” e que teria abandonado a família. Agora acamado e sem recebimento de nenhum benefício assistencial, seria difícil cuidarem dele. As filhas estudavam e trabalhavam o dia inteiro e a irmã já cuidava da mãe que também demandava cuidados especiais.

No decorrer dos atendimentos, foi possível notar que o paciente se abatia com mais intensidade quando recebia informações da impossibilidade de os familiares o visitarem. Assim, seu quadro somático também apresentava piora e apareciam sintomas infecciosos. Foram realizadas várias tentativas de decanulação** de sua traqueostomia, porém ele apresentava estenose da traqueia***, o que impedia a efetivação desse procedimento.

Por outro lado, quando o paciente obtinha informações sobre os familiares, era possível notar maior otimismo e esperança na possibilidade de reencontrá-los, melhorando humor e quadro clínico.

Com o passar dos atendimentos, o vínculo terapeuta-paciente foi se estabelecendo. Paciente sempre muito educado, porém de poucas palavras. Nesses encontros, era possível observar seu humor deprimido na maior parte do tempo. Confessou não ter sido um pai muito presente na vida das filhas, o que lhe causava desconforto. Também foi ficando claro que os familiares não tinham interesse em comparecer ao hospital para oferecer apoio nesse momento de hospitalização.

Em outubro daquele ano a equipe de serviço social localizou mais uma irmã, residindo outra cidade do interior do Estado de São Paulo, tendo esta se mostrado disposta a visitá-lo e oferecer alguma ajuda. Tal notícia foi uma injeção de ânimo para o paciente, que se consolidou com a sua visita ao hospital. A referida irmã desde o princípio revelou-se bastante afetuosa, e como era evangélica praticante, trouxe a religiosidade para a vida do paciente. Era possível vê-la com a Bíblia nas mãos enquanto conversavam. O período em que ela esteve no hospital

foi muito importante para o paciente.

* Procedimento realizado em pacientes que precisam de ventilação mecânica prolongada, que ocorre por meio de uma cirurgia que abre a traqueia e implanta uma cânula que permite a comunicação entre a traqueiae o pescoço.

** Retirada da cânula da traqueostomia.

*** Obstrução na região interna da traqueia ocorrido por um processo de cicatrização que acarreta dificuldade para respirar.

 

Cabe mencionar que essa irmã inclusive cogitou cuidar do irmão em casa, porémquando soube que o paciente não receberia nenhum benefício assistencial, também se viu impossibilitada de assumir os cuidados. O que foi um novo golpe para o paciente. Seu humor rebaixou novamente e cada vez que isso acontecia, ele apresentava um novo quadro infeccioso. Assim, com os acompanhamentos da psicologia, o paciente mesmo que verbalizando pouco, foi encontrando formas para lidar com esse seu sofrimento.

Encontrou em uma minissérie religiosa, que passava na TV naquela época, um conforto e momento de reflexão para reorganizar seu sofrimento pela condição física, familiar e pessoal. Em um dos atendimentos falou sobre perdão, que havia sido retratadona minissérie e que, aquilo tinha trazido algum significado para ele. Não chegou a verbalizar o que seria esse perdão em sua vida, mas foi possível perceber uma certa tranquilidade quando relatava, como se algo tivesse se acomodado dentro dele.

O final do ano chegou e a terapeuta saiu de férias. Paciente estava novamente entrando num processo de adoecimento o que foi bastante angustiante para a terapeuta.

Quando retornou das férias, paciente havia apresentado melhora e a equipe do serviço social estava em busca de uma casa de repouso socioassistencial, pois não havia mais necessidades médicas que justificasse sua permanência no hospital. Ao saber que sua transferência se aproximava, paciente foi ficando cada vez mais entristecido, quieto, o que causava bastante comoção para toda a equipe da enfermaria.

Em março de 2016, quando estava para completar um ano de internação hospitalar, paciente voltou a apresentar um novo quadro infeccioso. Era possível entender que o paciente não queria ir para a nova instituição, já tinha reconhecido que não receberia o suporte familiar necessário e que sua permanência no hospital estava ficando inviável.

Nesse momento, psicoterapeuta entendeu que a nova infecção era a despedida, pois a vida já estaria insuportável. Assim, seu quadro piorou muito, precisou ser transferido para a UTI, não resistiu a infecção e faleceu.

Quando paciente retornou para a UTI, em conversa com profissionais do setor, a psicóloga veio a saber que o real motivo da internação foi queda enquanto praticava furto em cabos de energia de uma rodovia. Chegou ao hospital trazido pela empresa concessionária que administrava aquela rodovia.

TRAUMA RAQUIMEDULAR

O traumatismo raquimedular – TRM, é uma lesão grave, segundo Forner(9), que resulta em síndrome neurológica altamente incapacitante que compromete as principais funções motoras, autonômicas e reflexas levando o paciente a uma inabilidade permanente (paraplegia ou tetraplegia), afetando física e psicologicamente não apenas o indivíduo acometido, mas também sua família e a sociedade. De acordo com Albuquerque, Freitas e Jorge(10), esses pacientes são considerados dependentes dos cuidados de enfermagem e da família para desenvolver atividades básicas da vida diária, como alimentar-se, vestir-se, posicionar-se na cama ou na cadeira e higienizar-se.

As transformações físicas ocasionados pelo TRM, despertam sentimentos de angústia e perda de autonomia uma vez que atingem todos os aspectos da vida da pessoa.

Conforme Rodrigues(11), essas alterações ficarão permanentes na experiência particular, trazendo dificuldades de contato com o mundo e consigo mesmo. Em termos simbólicos, Fabretti, Gonçalves e Iriya(12) explicam que o corpo que possui uma deficiência é revelador do diferente, favorecendo o contato com os limites da fragilidade, da impotência, da dependência e da finitude humana, dimensões que atemorizam, principalmente no contexto cultural em que a imagem da beleza e da juventude é extremamente valorizada.

Os referidos autores acrescentam que o atendimento psicológico, que ocorre em serviços de saúde, tem enfoque na realidade atual do paciente, observando suas condições pessoais e relacionais, trabalhando num nível mais cognitivo do que afetivo. Entretanto, tais aspectos se entrelaçam com fantasias a respeito da vida pregressa que revelam o início de um processo de integração das experiências atuais com sua própria história. A reabilitação psicológica em pessoas com lesão medular assume características peculiares, já que comumente passam por estágios semelhantes, aos descritos por Kubbler-Ross(13) referente aos pacientes com prognóstico reservado. Para a autora, inicialmente ocorre a negação por não assimilar a extensão do problema, a raiva como mecanismo de começar a entender o que aconteceu com o seu quadro clínico. Seguindose a depressão, quando acontece a integração e a consciência das informações dadas pelos profissionais acerca do caso. Também pode ocorrer a barganha como reparação da raiva manifesta, e finalmente, a aceitação às novas condições físicas e psicológicas, com maior reintegração familiar, social e profissional. Essas fases não ocorrem em uma ordem definida entre os pacientes.

Esse período de reabilitação, pode ser compreendido como um encontro súbito e indesejado com o desconhecido, um período de descontinuidade da vida e de perda de controle sobre seu destino. Assim, o atendimento psicológico junguiano deve promover espaço de acolhimento em que os sofrimentos, temores e fantasias sejam respeitados, a fim de autenticar as habilidades do ego em perceber, sentir, compreender e julgar as próprias experiências. Além disso, Fabretti, Gonçalves e Iriya (12) afirmam que a partir do respeito e da alteridade, o paciente vivencia alívio dos sentimentos de isolamento, angústia e culpa e abre espaço para que suporte o confronto com aspectos sombrios que o aterrorizavam, permitindo a identificação com a persona de deficiente.

Para Rodrigues(11), a deficiência física pode explicitar no corpo o acometimento que provocou aquele dano e, seria então, a oportunidade de representar o choque vivenciado por um lado e, promover a revisão das experiências acumuladas na vida até aquele momento, por outro lado. Assim, Fidélis(14) entende que as doenças remetem as pessoas a refletirem sobre a vida ou a morte, seus paradigmas, sua rotina, entre outras variáveis; sendo que quando o processo de transformação ocorre, o aspecto sombrio da doença desaparece, ampliando a consciência, fortalecendo e possibilitando uma relação com o Self.

PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO

O processo de individuação é, segundo Samuels(8), a consecução de uma mescla pessoal entre o coletivo e o universal por um lado, e o único e individual, por outro.

Kast(15) complementa que o processo de individuação refere-se ao movimento de tornarse quem realmente é num processo de diferenciação em que a especificidade da pessoa deve se manifestar, em sua singularidade.

Nas palavras do próprio Jung(16):

A individuação, portanto, só pode significar um processo de desenvolvimento psicológico que faculte a realização das qualidades individuais dadas; em outras palavras é um processo mediante o qual um homem se torna o ser único que de fato é. Com isso, não se torna ‘egoísta’, no sentido usual da palavra, mas procura realizar a peculiaridade do seu ser e isto, como dissemos, é totalmente diferente do egoísmo ou do individualismo (OC 7, 2015, §267).

Conforme aponta Edinger(2), como o próprio nome diz, é um processo e não um alvo a ser alcançado. Para Silveira(17), trata-se de um movimento de circunvolução e não um desenvolvimento linear que conduz ao Self, centro da personalidade total. A autora refere que o homem é capaz de tomar consciência desse desenvolvimento e de influenciálo. Edinger(2) complementa que cada novo nível de integração deve submeter-se a uma nova transformação para que o desenvolvimento se realize. Assim, segundo Silveira(17), os componentes da personalidade amadurecem e unem-se para a concretização de um indivíduo inteiro e específico, realizando suas potencialidades inatas.

De acordo com Jacobi(4), quando conscientemente observado e acompanhado, o processo de individuação representa uma confrontação dialética entre os conteúdos do inconsciente e os da consciência, em que os símbolos formam as pontes necessárias para conciliar as oposições aparentemente irreconciliáveis. A individuação está relacionada a aceitação de si mesmo e as suas respectivas possibilidades e dificuldades, sendo essa aceitação, segundo Kast(15), uma virtude fundamental a ser efetivada nesse processo.

Silveira(17) pontua que a individuação, não se trata de tornar-se perfeito, mas completarse, aceitando conviver conscientemente com suas tendências opostas. Também não se busca a eliminação do conflito, mas uma consciência ampliada dele e de todo seu potencial, conforme explica Samuels(8).

Para Edinger(2), a necessidade de individuação produz na psique um estado em que o ego mantém relação com o Self sem estar identificado com ele. A pessoa toma consciência de que há uma orientação interna autônoma, distinta do ego e, com frequência, antagônica a ele, surgindo desse estado um diálogo mais ou menos contínuo entre o ego e o inconsciente. Tal consciência às vezes constitui um alívio, outras vezes representa uma carga.

Jung viu o sentido da vida como uma ampliação crescente da consciência, com todas as suas consequências espirituais, religiosas e éticas. Por esta razão, Jaffé(18) explica que pode também compreender o processo de surgimento do consciente como uma individuação; é o mesmo que dizer que cada pessoa tem de trilhar um caminho de destino próprio, uma individuação pessoal, para realização do sentido da sua vida. Nunca foi negado a existência da falta de sentido, porém, na concepção de Jung, uma vida sem sentido não vale a pena ser vivida.

De acordo com Samuels(8), essas questões de sentido tem sido objeto da religião organizada, como uma tendência a ver sentido em termos dogmáticos e moralistas, embora, naturalmente, para muitos isso não seja verdade.

De acordo com Kast(15), Jung também caracteriza a individuação como algo interpessoal, pois ninguém se vincula com outro se antes não o fizer consigo mesmo.

Nesse sentido, a totalidade só é alcançada pela alma, que por sua vez, não pode existir sem o encontro com o “tu”. Na obra O eu e o inconsciente, Jung(16) descreve que a individuação “significa precisamente a realização melhor e mais completa das qualidades coletivas do ser humano; é a consideração adequada e não o esquecimento das peculiaridades individuais, o fator determinante de um melhor rendimento social” (§267).

Kast(15) afirma que o indivíduo que não se liga ao outro não possui totalidade alguma, pois a individuação é, concomitantemente, um processo de integração e relação.

Samuels(8) salienta que a individuação jamais é completa e permanece como um conceito ideal, a não ser pela possibilidade de se considerar a morte como um objetivo final.

Para Jaffé(18), o processo de individuação, em última análise, não é apenas uma escola para a vida, mas também uma preparação para a morte18. Não corresponde apenas a um autoconhecimento mais profundo, já que não visa somente a compreensão da própria totalidade, mas também se experimenta um poder que atua a partir do inconsciente e que pode intervir decisivamente na vida.

ESPIRITUALIDADE

Segundo Silva e Silva(7), a religião e a espiritualidade são palavras que se complementam, mas não podem ser confundidas em suas particularidades: a religião é uma instituição humana e nos leva a aprender com as experiências da comunidade, já a espiritualidade é uma vivência nata do homem e o estimula a saborear as experiências da vida. Enquanto a religião é mais cognitiva, a espiritualidade é mais emocional. Os referidos autores afirmam que sempre haverá uma relação entre os termos religião eespiritualidade, sem que esses conceitos apresentem as mesmas características.

Para Hall(5), a psicologia junguiana entende que o ser humano é concebido como homo religiosus, ou seja, possui em sua estrutura psíquica uma predisposição para a vivência da religiosidade. Por religiosidade Jung designava compreender o propósito, o sentido da vida ou a busca de alguma razão para viver. Assim, o autor supracitado explica que quando falava de Deus, não fazia afirmações metafísicas, mas se referia a uma imagem presente na psique; imagem essa que constituiu um objeto de estudo tão legítimo quanto qualquer outra coisa da mente.

De acordo com Jung(19):

A finalidade da evolução psicológica é tal, como na evolução biológica, a autorrealização, ou seja, a individuação. Visto que o homem só se percebe a si próprio como um ego e o Self como totalidade, é algo indescritível, não se distinguindo da imagem de Deus, a autorrealização não é outra coisa em linguagem metafísica e religiosa, do que a encarnação divina. É istoprecisamente que vem expresso na filiação de Cristo. (OC 11, 1983, §233)

Santos e Ramón(20) afirmam que a dimensão religiosa é vista como uma condição cabal para a existência ou realização humana. Nesse sentido, Jung(19) entende que “a psiconeurose, em última instância, é um sofrimento de uma alma que não encontrou seu sentido” (§497), ou seja, o sofrimento da psique é a estagnação espiritual, a esterilidade da alma. Ainda para Jung, de acordo com Santos(21), a vivência religiosa, assim como a terapia, proporciona o crescimento humano, já que ambos favorecem a individuação.

Peres(6) pontua que as religiões advogam, em geral, o perdão e a absolvição, frequentemente úteis na resolução de conflitos. Já a psicoterapia, de acordo com Jung(19), coloca o paciente frente ao seu problema vital e, consequentemente, com questões graves e decisivas que ele até então procurara evitar. Assim, segundo Peres(6), é possível trabalhar com o autodesenvolvimento livre, sensibilizando seus clientes quanto a competência necessária para mudar ou dirigir suas próprias vidas.

Segundo Silva e Silva(7), o bem estar espiritual vem sendo considerado como mais uma dimensão da condição de saúde humana. Essa dimensão pode ser de componente religioso (bem estar em relação a Deus) e de componente existencial (sentido de propósito e satisfação de vida). Para os autores, o fortalecimento do bem estar espiritual pode auxiliar significativamente na redução de angústia relacionada doença, bem como na promoção de saúde mental. Nesse sentido, Peres(6) entende que é importante o reconhecimento da espiritualidade como componente essencial da personalidade e da saúde. Silva e Silva(7) recomendam que para encarar a vida de maneira positiva é preciso ter a consciência de que o homem é um ser espiritual, que tem ou não uma religião, e que busca um sentido para sua vida e tem a capacidade para encontrá-lo.

MORTE

Segundo Jung(22), a vida é um processo energético e, como tal, é irreversível, por isto, é orientado univocamente para um objetivo, que é o estado de repouso. Para o referido autor, a vida é teleológica par excellence, é a própria persecução de um determinado fim e o organismo nada mais é do que um sistema de objetivos prefixados que se procura alcançar. Já a morte é descrita por Jung(23) como “uma grande concluidora, que coloca, inexoravelmente, o ponto final no balanço da vida humana, (...) é o fim do homem empírico e a meta do homem espiritual” (§695).

No entanto, Byington(24) revela que para a psicologia simbólica e a psicologia analítica, a morte não é somente oposta a vida, pois quando observadas em posição dialética, morte e vida se articulam criativamente, interagindo de forma complementar e adequada ao processo de desenvolvimento. Para o autor, tanto a vida quanto a morte podem ser desejáveis ou indesejáveis, criativas ou defensivas nesse processo, sendo que quando coordenadas criativamente ambas são necessárias, mesmo que dolorosas e quando descoordenadas e inadequadas, ambas são prejudiciais, operem elas de forma dolorosa ou não.

No entendimento de Jung(23), Tudo o que ainda não está onde deveria estar, e tudo o que ainda não pereceu, e que devia ter perecido, sente medo do fim, isto é, do ajuste final. Sempre que possível, esquivamo-nos de tornar conscientes aquelas coisas que ainda faltam à totalidade, e, com isso, impedimos a conscientização do si mesmo e, desta forma, a prontidão para a morte (§695).

Do ponto de vista psicológico, para Jaffé(18), a morte é o “desapego” total, anulação do ego e do mundo consciente no interior de um não-Eu desconhecido e sombrio. Oportunamente, para a autora, parece que, diante da morte, o implacável confronto com o Self força o homem a completar a parcela de sua individuação que ainda é possível antes de morrer. Equiparar a vida com a individuação, de acordo com Jaffé(18), corresponde a uma experiência bastante frequente: a de que a morte ocorre quando se atinge a meta desse processo. Para a autora, o desenvolvimento da personalidade é uma relativização do ego, sem levar em conta os interesses pessoais, diante de um desejo do não-Eu autônomo, que por isso mesmo é vivenciado como numinoso. Ainda segundo a autora supracitada, não se trata de uma entrega impotente aos fatos, mas de um “sim” consciente a essas intenções, ou um humilde “sim” a própria rendição.

Desse modo, Barreto(25) entende que a proximidade da morte suscita diversos sentimentos ameaçadores, porém quando o indivíduo integra a concepção de que a finitude é parte do ciclo vital e passa a dar novos significados a vida, esse momento assustador torna-se um momento de coroação da existência, de oportunidade de crescimento e de integração do Self.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O processo de individuação é um tema central da psicologia junguiana e consiste em trazer à consciência conteúdos psíquicos inconscientes, de tal modo que possa ocorrer uma ampliação da personalidade. Em função do confronto com os próprios defeitos de caráter, como por exemplo, inveja, agressividade, desonestidade, amoralidade etc., o indivíduo se vê diante de questões de ordem moral e essa reflexão leva a um maior autoconhecimento.

O presente trabalho procurou refletir sobre as possibilidades de individuação a partir de uma transformação radical na vida de um indivíduo do sexo masculino, com 46 anos, vítima de trauma raquimedular após queda, que o torna paraplégico. A paraplegia leva a inabilidade permanente e afeta física e psicologicamente o indivíduo acometido e todo o seu entorno: familiar e social.

Nesta situação de absoluta vulnerabilidade, aceita conversar com a psicóloga, abrindo-se para assimilação do trauma físico, assim como para a autorreflexão. Diante da nova realidade, o paciente é constrangido a pensar sobre a própria vida, suas escolhas pessoais, atitudes em relação a ex-esposa e filhas, o distanciamento da família estendida.

A terapeuta consegue identificar com certa clareza a relação entre a tristeza do paciente, o surgimento de processos infeciosos e a recusa dos familiares em visitá-lo e ou acolhê-lo. Um aspecto importante do processo de individuação é a percepção das próprias falhas e a integração por meio da responsabilização.

Após a breve visita de uma irmã evangélica, um aspecto importante para o processo é acrescentado: a reconexão com valores de natureza religiosa ou espiritual. Jung sublinha a grande importância da espiritualidade como fornecedora de estruturas de significado e propósito, que ajuda integrar e superar as adversidades da vida. Embora sem elaborar em profundidade, o perdão mencionado pelo paciente parece simbolizar a integração de aspectos sombrios inconscientes.

A internação pode ter possibilitado ao paciente o restabelecimento de vínculos afetivos, que aparentavam estar ausentes até o momento do acidente. Possibilitou o reconhecimento e enfrentamento de suas falhas em relação à própria família e a recuperação de valores espirituais esquecidos ou negligenciados. O processo de individuação possível para esse indivíduo parece ter sido atingido, pois diante da iminência de ser transferido para outra instituição e perder os vínculos estabelecidos, o paciente adoece e morre.

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21. Santos EA. As contribuições de Freud e Jung à psicologia da religião. Numen: revista de estudos e pesquisa da religião. 2013; 16 (1): 835-859.

22. Jung CG. A natureza da psique. In Obras Completas, vol. 8/2, 10. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

23. Jung CG. Um mito moderno sobre coisas vistas no céu. In Obras Completas, vol. 10/4, 6. ed. Petrópolis: Vozes, 2013.

24. Byington CAB. O arquétipo da vida e da morte. Um estudo da psicologia simbólica. Junguiana. 2019; 37 (1): 175-200.

25. Barreto AF. Da morte simbólica à morte real: o processo de individuação em pacientes terminais. Bilotta FA, Amorim S, organizadoras. A psicologia junguiana entra no hospital: diálogos entre corpo e psique. São Paulo: Vetor, 2012.

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1A autora agradece a colaboração e as orientações da Dra. Cristina Accioly Nunes, professora convidada

do Instituto Ânima de Estudos Junguianos. * Endereço para correspondência: Rua Dr. Antônio Xavier de Mendonça 2-78 - Vila Santa Tereza - Bauru–

SP. CEP: 17012-058. Telefone: (14) 99708-7428. E-mail: renatapires.psico@hotmail.com.

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