Jornada com as Deusas tecelãs no conto “Fátima, a fiandeira”

Magda Morangueira Carlson

Jung

Jornada com as Deusas tecelãs no conto “Fátima, a fiandeira”

Magda Morangueira Carlson, Miriam Lúcia Barreto (orientadora)

magdacarlson@hotmail.com, miriamlu.barreto@yahoo.com.br

Resumo

Os contos costumam apresentar diversas camadas de interesse. A história em si é a camada mais visível. No entanto, é possível que o texto permita leitura mais aprofundada, revelando intenções e mensagens ocultas por ocasião do primeiro exame. Além disso, muitos contos resultam de uma base de conhecimento arquetípica, isto é, trazem assuntos já debatidos, como mitos e lendas, sob outra roupagem. Símbolos também se fazem presentes. Com isso, a interpretação contextualizada dos contos torna-se significativo ferramental de uso em psicologia clínica, por exemplo. O conto aqui escolhido narra, em sua camada superficial, a história de uma mulher, Fátima, que desde a mocidade vai enfrentando dificuldades crescentes. Ao superá-las, reúne habilidades tais como fiandeira, tecelã e artífice para, enfim, solucionar uma questão milenar por meio dessa construção pessoal. Este trabalho tem por objetivo analisar esse conto, decifrando seu conteúdo simbólico e listando e descrevendo os mitos com ele relacionados. Por fim, conceitos de psicologia junguiana são identificados no texto, evidenciando a importância e riqueza dessa abordagem no processo terapêutico.

Palavras-chave: Deusas. Símbolos. Individuação.

Abstract

Tales usually have several layers of interest. The story itself is the most visible layer. However, it is possible that the text allows for further reading, revealing intentions and hidden messages at the time of the first examination. In addition, many tales result from an archetypal knowledge base, that is, they bring subjects already debated, such as myths and legends, under another guise. Symbols are also present. Therefore, the contextualized interpretation of the stories becomes a significant tool for use in clinical psychology, for example. The tale chosen here narrates, in its superficial layer, the story of a woman, Fátima, who has been facing increasing difficulties since her youth. Upon overcoming them, she gathers skills such as spinner, weaver and craftswoman to finally solve a millennial issue through this personal construction. This work aims to analyze this tale, deciphering its symbolic content and listing and describing the myths related to it. Finally, concepts of Jungian psychology are identified in the text, showing the importance and richness of this approach in the therapeutic process.

Keywords: Goddesses. Symbols. Individuation.

Apresentação

O conto é uma linguagem rica e complexa que permite trabalhar com todos os aspectos simbólicos da vida, tanto no coletivo quanto no pessoal. Ele conduz a uma viagem cheia de emoções. De acordo com (1), p.9, o conto de fadas “é, em si mesmo, a sua melhor explicação, isto é, o seu significado está contido na totalidade dos temas que ligam o fio da história”.

Os contos ampliam as etapas de desenvolvimento e possibilitam a ligação entre o consciente e o inconsciente. Promovem a autoanálise do indivíduo, aprimoram a sua criatividade e a sua capacidade reflexiva, contribuindo para uma realização pessoal e profunda.

A psicologia junguiana vê os contos como representação simbólica de problemas comuns à humanidade. “O conto oferece um modelo para a vida, um modelo vivificador e encorajador que permanece no inconsciente contendo todas as possibilidades positivas da vida.” (1) p.74. Ainda de acordo com a mesma autora, p. 33: “Os contos de fada espelham a estrutura mais simples, mas também a mais básica – o esqueleto – da psique.”

Este trabalho tem como objetivo promover a leitura do conto “Fátima, a fiandeira”, encontrado em (2), sob diversos aspectos. O primeiro deles é a identificação e discussão dos principais símbolos presentes naquele texto. Em seguida, inspirado pela temática, é invocada a presença de algumas dentre as deusas tecelãs e seus respectivos mitos. Por fim, recorre-se à psicologia junguiana para justificar, no conto, a descoberta do relato de um processo de individuação.

Do ponto de vista metodológico, o trabalho tem caráter descritivo. Foram buscadas informações sobre símbolos, bem como histórias sobre as tecelãs, desde os primórdios representadas nas artes e na literatura, nos contos de fadas e em algumas mitologias, sempre por meio da figura do feminino, como as Deusas, fadas e mulheres, exemplificando a relação de criação, preservação e manutenção da vida. Os resultados desta pesquisa bibliográfica são organizados de maneira a evidenciar a associação entre símbolos, mitos e conceitos junguianos com aquilo que o conto propõe.

Trabalhos similares

Embora não tenha sido possível encontrar, na pesquisa bibliográfica aqui realizada, nenhum trabalho versando sobre o mesmo conto, sua temática surge em alguns textos.

Em (3), a autora busca “tecer um panorama, como uma grande colcha de retalhos, apontando possíveis sentidos para a costura, o bordado e a tecelagem, a partir do pano de fundo da psicologia analítica”. A partir de um ponto de vista feminino, apresenta pesquisas anteriores sobre essas atividades, bem como mitos e contos relacionados com elas. As partes do texto são separadas por textos poéticos relativos ao tema central do trabalho. Um dos capítulos aborda a “mulher artesã de si mesma”, associando a ideia aos conceitos de “criatividade” e “individuação”. O potencial terapêutico de atividades como a costura é tratado em outro capítulo. A autora lembra que a costura “pode ser olhada pelo avesso”, o que deixa à vista o processo por meio do qual ela foi feita. Por fim, examina o impacto da internet e o surgimento do “homem sem fio”.

A arteterapia é a base de (4). Nesse artigo, a autora aborda “o atributo feminino de tecer, correlacionando-o simbolicamente às histórias e à escrita, à luz da Arteterapia e da Psicologia

Analítica.” Comenta trechos de um filme norte-americano (“Colcha de Retalhos”) e propõe atividades terapêuticas baseadas em textos, dentre eles o conto aqui tratado.

O conto “Fátima, a Fiandeira”

O conto (2) desenrola-se em etapas, que estão relacionadas com o movimento da psique de Fátima. Em cada etapa ocorre uma organização e uma desorganização, que simbolizam a forma pela qual a psique da heroína se apresenta.

A personagem é filha de um casal de fiandeiros e torna-se, ela também, uma fiandeira experiente.

Fátima fica feliz com o convite de seu pai para uma viagem, em que (segundo ele) ela poderá encontrar um bom moço para se casar. Inicia-se a viagem e o contato com o novo. Isso é interrompido pelo naufrágio de sua embarcação, do qual ela é a única sobrevivente. Fátima é obrigada a enfrentar o desconhecido.

Ela é encontrada por uma família de tecelões, a quem ela conta a sua história. Acaba por morar com eles, aprendendo um novo ofício e tornando-se excelente tecelã.

Um dia, caminhando pela praia, “perdida em seus pensamentos”, é raptada por piratas. Mais uma vez, Fátima encontra-se em alto mar, sem saber para onde está sendo levada.

Em terra, vê-se em um grande mercado, amarrada a um poste, à espera de um comprador. Seu ar desamparado denota que ela se sente abandonada, entregue à própria sorte. Isto atrai a atenção de um fabricante de mastros de navios, que a leva para sua casa a fim de torná-la escrava da esposa.

Mais uma tragédia acontece: ladrões haviam levado todo o dinheiro do novo mestre de Fátima, que assim a libertou por não poder mais ficar com ela. Mas Fátima, agradecida por ele tê-la livrado dos piratas, resolve ficar naquela família e novamente está feliz. Ela adquire uma nova habilidade, a de construir mastros de navios.

Com o tempo, ela é enviada à ilha distante de Java. Na viagem, ocorre um enorme furacão e mais um naufrágio. Conseguindo chegar à terra firme, Fátima percebe que está mais uma vez só e entregue ao seu destino. Sai caminhando pela praia sem respostas para suas perguntas, até encontrar um arauto que solicitava a qualquer mulher estrangeira apresentar-se ao imperador da China. Isto porque, de acordo com uma antiga profecia, uma mulher estrangeira construiria uma grande tenda para o imperador.

Para construir a tenda, Fátima precisaria de cordas, tecido e mastros. Ela começa a recordar suas habilidades: como fiar cordas resistentes, como tecer a tela perfeita e como fabricar estacas firmes. Produz tudo com as próprias mãos, utilizando seus recursos internos. Porém, precisa ainda recorrer à lembrança das tendas que já havia visto (recursos externos). Com isto, a profecia concretiza-se e o imperador concede a ela o que ela quiser. Pela primeira vez, portanto, graças a uma permissão da autoridade máxima, ela tem a possibilidade de escolha. Ela opta por ficar naquele país, enfrentando a tarefa de recomeçar a vida. Depois de algum tempo encontra um bom moço, casa-se com ele e tem muitos filhos. Realiza-se assim o que o pai de Fátima havia dito em sua primeira viagem.

O texto em (2) é, segundo a autora, uma versão “recontada” do que se encontra em (5), intitulado “A fiandeira Fatima e a tenda”. O autor, Idries Shah (1924-1996), nasceu em família aristocrática do

atual Afeganistão (à época, Índias Britânicas) e teve acesso a educação que incluiu elementos do Oriente e do Ocidente (6). Morador da Inglaterra desde 1955, Shah dedicou-se à divulgação do “sufismo”, que (em poucas palavras) é uma corrente mística e contemplativa cujos adeptos (os “sufis”) buscam desenvolver uma relação direta com Deus por meio de práticas espirituais. Os iniciados e praticantes do sufismo são genericamente chamados de “dervixes”. Originalmente ascético e independente de qualquer religião ou livro sagrado, o sufismo disseminou-se fortemente no islamismo. No entanto, algumas das práticas sufistas contrariam a ortodoxia muçulmana e assim até hoje o sufismo não é integralmente aceito por teólogos e jurisprudentes islâmicos (7).

Em (5), são mais de 80 contos. Curiosamente (e ao contrário de (2)), há pouquíssimos dentre eles em que as mulheres são protagonistas. Cada conto termina com um pequeno apêndice em que Shah indica a origem conhecida da história e, muitas vezes, sua interpretação ou mensagem à luz do sufismo. No caso do conto aqui discutido, Shah escreve:

Esta história é bem conhecida no folclore grego, no qual, em muitos dos seus temas contemporâneos, figuram dervixes e suas lendas. A versão aqui citada é atribuída ao Shaykh Muhammad Jamaludin de Adrianópolis. Ele fundou a Ordem Jamalia (“A Bela”) e morreu em 1750.

Alguns símbolos que estruturam o conto

De acordo com (8), p.19:

O que chamamos de símbolo é um termo, um nome ou mesmo uma imagem que nos pode ser familiar na vida diária, embora possua conotações especiais além do seu significado evidente e convencional. Assim, uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além do seu significado manifesto e imediato.

Com base em (9), p.xvi, o símbolo não é geralmente racional; é a chave de um mistério, por vezes a única maneira de transmitir algo que não pode ser entendido de outra forma. Um símbolo nunca é explicado definitivamente e deve sempre ser decifrado de novo, o que confere ao símbolo uma multiplicidade de significados. Além disso, o símbolo é construído ao longo da história na coletividade e, portanto, não pode ser criado ou inventado pelo indivíduo.

O símbolo é um conceito importante na compreensão junguiana da psique. Ele representa imagens e vivências que têm aspectos conscientes e inconscientes. A palavra “símbolo”, em sua origem grega, significa “juntar”. Os símbolos estão presentes em dois níveis, um conhecido (baseado em objetos do mundo perceptível) e outro desconhecido (expresso por meio de fantasias e projeções). De acordo com (10), p.27, os símbolos “transportam e transformam emoções e percepções”.

É por meio do símbolo que novos conteúdos, que estavam inconscientes, podem ser trazidos à consciência e assimilados, ampliados e transformados. Na atitude simbólica compreendemos a importância da atitude fundamental da consciência para considerar que há um sentido no fenômeno sendo vivenciado; é assim que se pode reconhecer se se trata ou não de um símbolo.

Os símbolos nos contos de fadas são ferramentas importantes que atuam no contato com as imagens que parecem assustadoras, mas são, ao mesmo tempo, salvadoras.

Os símbolos expressam imagens e essas imagens contidas nos contos são reveladoras de padrões arquetípicos fundamentais para a compreensão de muitos comportamentos humanos. “Os símbolos são projeções de nossas possibilidades imaginárias.” (10), p.25

No conto aqui discutido aparecem lugares áridos, de poucos recursos. As cidades maiores são descritas como distantes. O mar é o elemento que separa cada etapa da história. São também símbolos presentes no texto: o fio, o tear, a roca, o navio e a tenda. Ainda de acordo com (10), p.27: “Os símbolos, em especial os coletivos, nos estimulam e nos movem interna e emocionalmente, mas também dão às nossas emoções uma forma, compreendendo-as.”

O fio

O simbolismo do fio é rico em possibilidades. Segundo (9), ele liga os estados da existência entre si e ao seu “Princípio”. Os autores fazem uma distinção entre o fio da teia e o fio da trama, sendo que a teia compreende o conjunto de fios verticais tensionados entre os dois extremos do tear, enquanto os fios que se entrelaçam entre estes, no sentido contrário, compõem a trama do tecido. A partir de um olhar que leva em conta a simbologia cósmica, segundo os autores, a teia ligaria entre si os mundos e os estados, ao passo que o desenvolvimento condicionado e temporal desses mundos e estados seria representado pela trama.

Para (11), o fio e o seu simbolismo estão presentes nos contos de fadas, histórias e relatos orais de diferentes povos, culturas e épocas. Às figuras de tecelões, fiandeiras e costureiras são atribuídos poderes mágicos.

A passagem do fio pela agulha simboliza ainda o vínculo entre os níveis cósmicos, terrestres, celeste e infernal ou entre os níveis psicológicos da consciência e do inconsciente. Na Ásia, o fio simboliza o casamento e a ligação entre os esposos.

Além disso, expressões como “a vida por um fio” e perder ou encontrar “o fio da meada” fazem parte do cotidiano.

A roca e o fuso

Segundo (9), p.455, o fuso “revela o caráter irredutível do destino (...). O duplo aspecto da existência é, aí, manifesto: a necessidade do movimento, do nascimento à morte, mostra a contingência dos seres. A necessidade da morte reside na não-necessidade da vida.” Ainda (p.782): “Junto com o fuso, (...) a roca simboliza o desenrolar-se dos dias, a existência cujo fio deixará de ser tecido, quando a roca se esvaziar. É o tempo contado que termina inexoravelmente.”

A roca regula a vida de todo ser vivo; a tarefa de utilizá-la exige concentração, foco e paciência. Remete a situações cíclicas: a vida e a morte, as estações, o dia e a noite, a menstruação, a gravidez, bem como o desenvolvimento pessoal.

Na época medieval (Alemanha), a expressão “parentesco de fuso” era utilizada para designar a família materna. É o símbolo das velhas sábias e das feiticeiras. Semeadura, fiação e tecelagem estão ligadas à essência da vida feminina (11).

A tecelagem

“O simbolismo do fio está intrinsecamente relacionado ao simbolismo da tecelagem que, por sua vez, representa a própria criação.” (3), p.68, referindo-se a criação tanto ao surgimento do cosmos quanto à força criadora presente em cada ser humano, como se pode ver em mitos e histórias de

diferentes origens. A tecelagem e a lavoura costumam estar juntas nos mitos e nas tradições, por serem, ambas, atos de criação tradicionalmente ligados às mulheres (em outras palavras, símbolos da fecundidade).

O tecido, o fio, o tear e todos os apetrechos relacionados entre si são símbolos da criação e de novas possibilidades, que servem para reger ou intervir no destino.

Segundo (9), p.872, “quando o tecido está pronto, o tecelão corta os fios que o prendem ao tear e, ao fazê-lo, pronuncia a fórmula de benção que diz a parteira ao cortar o cordão umbilical do recém-nascido”. Não por acaso, então, fiar e tecer são atividades relacionadas ao feminino.

As primeiras formas de tecelagem, na produção de cestaria e cerâmicas (nutrição) e de roupas (proteção do corpo), foram inspiradas nas teias de aranhas e na natureza.

A tecelagem aparece com um símbolo da criação, tanto no universo como da vida humana. Em culturas de diversos lugares e época, as tapeçarias, bordados, painéis são documentos de fatos históricos, mitológicos da vida cotidiana.

Em (11), p.73: “O mistério que envolve o de dar à vida é fundamentalmente associado à ideia de fiação e tecelagem, atividades femininas complexas que consistem em reunir elementos naturais em determinada ordem.”

Tecer significa ativar e misturar experiências de vida, produzindo um padrão único, diferenciando cada ser de todos os demais. Quando uma nova experiência é integrada ao viver de alguém, não se deve temer as transformações; ao contrário, isso indica participação na criação do próprio destino.

O tear

A arte da tecelagem está relacionada com os mitos cosmogônicos. É por meio dela que a divindade tece o mundo inteiro num tear - este considerado uma imagem feminina (3), p.76.

O tear guarda relação com a estrutura e o movimento do universo (9). O rolo de cima recebe o nome do “céu” e o rolo de baixo representa a “terra”.

O mar

Para (9), p.592, o mar é o "símbolo da dinâmica da vida". É o "lugar dos nascimentos, das transformações e dos renascimentos". Por estar sempre em movimento, "simboliza um estado transitório entre as possibilidades ainda informes e as realidades configuradas".

Uma passagem interessante uma mitologia celta é apresentada pelos autores:

A criança jogada ao mar é também um dos temas mitológicos mais marcantes relacionados com o simbolismo da água: Morann, filho do rei usurpador Cairpre, ao nascer é um monstro mudo, que é jogado ao mar. Mas a água rompe a máscara com a qual seu rosto estava coberto. Ele é recolhido por servidores e, sob o reinado do sucessor legítimo de seu pai, transforma-se em um grande juiz.

O navio

O navio está associado à ideia de força e segurança numa travessia difícil. Sendo guiado pelo homem, é uma imagem da vida, cuja direção cabe ao homem escolher. Note-se que mesmo as igrejas têm o formato de um casco de navio, sendo "a barca de Pedro (...) um instrumento de salvação" (9), p.632. As navegações, em particular quando o objetivo é atingir uma ilha, podem ser

vistas como uma busca do centro espiritual de cada um. Neste caso, a ilha é "um refúgio, onde a consciência e a verdade se uniriam para escapar aos assédios do inconsciente" (9), p.501.

A tenda

A tenda simboliza a “presença do céu sobre a terra, a proteção do Pai” (9). É um lugar sagrado, onde o divino é convocado a manifestar-se. Muitos povos imaginam o céu como uma tenda; a Via-Láctea é a costura dessa tenda, enquanto as estrelas são os espaços para a luz.

A ideia do céu como uma tenda é retomada no poema “Tecendo a manhã” (12):

Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito que ele e o lance a outro; de um outro galo que apanhe o grito que um galo antes e o lance a outro; e de outros galos que com muitos outros galos se cruzem os fios de sol de seus gritos de galo, para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos, se erguendo tenda, onde entrem todos, se entretendendo para todos, no toldo (a manhã) que plana livre de armação. A manhã, toldo de um tecido tão aéreo que, tecido, se eleva por si: luz balão.

As Deusas tecelãs

Desde o princípio da civilização, a grande Deusa tecelã emana o primeiro movimento de criação: traçando os fios em infinitas possibilidades, vai tecendo o universo e vida humana.

Citando (9), “As Fiandeiras e Tecelãs abrem e fecham indefinidamente os ciclos individuais, históricos e cósmicos”. Diversas culturas possuem registros de pelo menos uma Deusa associada às atividades de fiar e tecer. De fato, desde os tempos primordiais, Deusas trazem em suas mãos fusos e rocas, simbolizando sua influência e controle sobre o tempo e a duração das vidas dos homens, não raras vezes revelando seus aspectos impiedosos pela necessidade de reger as contínuas mudanças nas suas vidas.

Segundo (13), p. 99, o “significado de tecer – como tudo que é arquetípico – é tanto positivo quanto negativo, e todas as Grandes Mães do Mundo – (...) até mesmo as bruxas dos contos infantis – são as fiandeiras do destino.”

Para (14), p.133, apud (15), o “ato de fiar está estreitamente vinculado à feminilidade. É atributo das Deusas-mães que tecem a trama da vida, o destino, que sem cessar agrupam e organizam os elementos da Natureza. (...) Está sempre associado à roca como parte indispensável da atividade feminina de tecer novas vidas, tecer “os tecidos” do corpo”.

As Moiras

Deusas gregas, são as grandes tecelãs do destino individual, da “parcela que toca a cada um neste mundo” (16). Cada indivíduo tem a sua moira, “sua parte, seu quinhão” de vida, de felicidade, de desgraça. A moira representa assim uma lei universal, onde o destino é fixo e imutável: nem mesmo os deuses podem desobedecer a essa lei. Com o passar do tempo, as moiras foram reunidas numa tríade, personificando o destino individual: Cloto, Laquesis e Átropos. Cada uma tem suas funções específicas: Cloto, a fiandeira, é a que fia e segura o fuso, puxando o fio da vida; Laquesis enrola e sorteia o nome de quem vai morrer; e Átropos é a inflexível, aquela que corta o fio da vida. Note-se, ainda, que o número três costuma ser associado a etapas temporais como começo-meio-fim, passado-presente-futuro e nascimento-vida-morte, por exemplo.

As Parcas

Deusas romanas fiandeiras, foram aos poucos identificando-se com as Moiras e seus atributos. Analogamente, presidiam ao nascimento, ao casamento e à morte. A palavra parca vem do verbo “parir, dar à luz”. Eram três: Nona (nascimento), Décima (casamento) e Morta (morte).

Atena

Deusa grega, a mais conhecida e protetora das tecelãs, patrona de todas as artes e ofícios, possuía habilidade de guerra, mas dominava os afazeres domésticos em época de paz. Às mulheres ela confere a compreensão e o valor e a importância dos poderes criativos do tecer o sagrado em todos os atos cotidianos. Em (16), ela é a Deusa “vitoriosa pela sabedoria, pelo engenho e pela verdade. Sua lança é uma arma de luz: separa, corta e fere. Deusa da fecundidade, deusa da vitória, sabedoria. Atena simboliza mais que tudo a criação psíquica, a síntese por reflexão, a inteligência socializada.”

Aracne

Mortal, exímia tecelã, por soberba esqueceu seu lado mortal, distanciando-se de sua mestra, Atena, pois acreditava que seu talento se devesse apenas a si mesma. Aracne desafiou Atena, que aceitou. Atena elaborou uma tapeçaria representando a si mesma e aos outros deuses em toda a sua glória, bem como as metamorfoses utilizadas por certos deuses para punir seus rivais. Aracne, por sua vez, teceu histórias maliciosas dos deuses, suas intrigas e desmandos. Com a perfeição do trabalho de sua discípula, Atena rasgou seu trabalho e a feriu. Aracne, insultada, tentou enforcar-se, mas foi sustentada no ar por Atena, que lhe deu a chance de continuar tecendo, transformando-a, porém, numa aranha. Ela foi assim castigada pela ousadia de tecer os crimes cometidos pelos deuses (16).

Penélope

Mortal, descrita na “Odisseia” de Homero como modelo de fidelidade, graças ao seu eterno movimento de tecer durante o dia e desmanchar o trabalho à noite, na espera do seu marido. Assim o bordado torna-se uma possibilidade de criar diferentes versões de si mesma.

Para os taoístas, o vaivém do fio da lançadeira sobre o bastidor (ambos instrumentos da bordadeira) simboliza o ritmo vital de expansão e reabsorção e alternância de dia e noite como encontrado no mito de Penélope (9).

Ariadne

O mito do labirinto de Creta (17), do qual Ariadne é personagem, tem mais de uma derivação importante e relacionada com o tema deste trabalho. O labirinto foi construído pelo rei Minos para abrigar (e esconder) o Minotauro, criatura metade homem, metade touro, nascida do amor entre a rainha e um touro. De tempos em tempos, jovens atenienses eram colocados no labirinto para morrerem, numa vingança de Minos por seu filho ter morrido em guerra com Atenas. Numa dessas vezes, coube ao jovem Teseu entrar no labirinto. Ariadne, filha do rei e apaixonada por Teseu, entrega-lhe uma espada e um novelo com o qual ele pode marcar o caminho, possibilitando-lhe assim matar o Minotauro e sair do labirinto.

A mesma ideia básica aparece, dentre outras obras, na Divina Comédia (18). Nela, o herói Dante parte em busca de Beatriz, sua amada. Percorre, sucessivamente, o Inferno, o Purgatório e o Paraíso. São, figuradamente, labirintos, partindo do sentido físico (o Inferno, descrito como um lugar de círculos concêntricos, desorientador, desordenado, escuro e habitado por monstros híbridos), passando pelo sentido espiritual (o Purgatório, onde têm lugar as jornadas de purificação do herói) e chegando ao divino (o Paraíso, em que o caminho até Deus e a Verdade não é completamente revelado). Nos momentos mais importantes, de maneira similar à de Ariadne, tanto o poeta Virgílio quanto Beatriz socorrem Dante, indicando-lhe o caminho correto. Do mesmo modo que Teseu consegue sair do labirinto, Dante retorna de sua viagem para o mundo terreno.

Uma analogia do labirinto é também usada, desde o período medieval, para descrever a mente de uma pessoa pecadora (17). Nesta ideia, a consciência é um labirinto quase que impenetrável para o confessor e, também, inextricavelmente entretecido para o pecador. As perguntas do confessor equivalem a um fio de Ariadne que permite encontrar o centro do problema e trazê-lo à luz.

Isis

Deusa principal do panteão egípcio (19), é filha de Geb (deus associado à terra) e Nout (deusa associada ao céu) e tem Osíris por irmão gêmeo e esposo. Eles têm outro par de irmãos gêmeos, Seth e Nephtys, também casados entre si. Osíris reina no Egito, mas é invejado por Seth, que consegue encerrá-lo num sarcófago até a morte. O sarcófago é atirado ao rio Nilo. Isis consegue encontrá-lo, mas Seth o recupera e decide esquartejar o cadáver de Osiris em catorze pedaços, atirando-os novamente ao rio. Ajudada por sua irmã Nephtys, Isis reúne treze dessas partes, faltando o pênis, que foi engolido por um peixe. Assistida por Anúbis (deus dos funerais e do embalsamamento), Isis costura os fragmentos e envolve o corpo em tiras de pano; em seguida, bate as asas e dá um sopro de vida a Osiris. Unindo-se a ele, concebe Horus, que será o novo rei.

Enquanto Osiris é o deus da fecundidade e da perenidade (o primeiro morto ressuscitado), Isis torna-se o símbolo da feminilidade, correspondendo ao princípio feminino da Natureza (no sentido de receber a semente criadora) e à mãe nutriz.

Baba Yaga

É a velha selvagem, que carrega sabedoria de acesso à intuição instintiva em um processo de iniciação para além dos domínios da consciência. Em (20), p.99, a “intuição é o tesouro da psique da mulher”, não como função psicológica, mas como atributo do feminino.

É a iniciação de um contato com a sabedoria sagrada do mundo interior, que permite o entendimento mais profundo dos ciclos vida-morte de toda a Natureza (11). Em (20), p.147, lê-se: “A natureza não pede licença. Floresça e dê à luz sempre que tiver vontade. Como adultas,

precisamos muito pouco de licença, mas, sim, de maior criação, de maior estímulo dos ciclos selvagens.”

Outras deusas

Em diferentes culturas encontramos mitos e contos que fazem citações à tecelagem como metáfora da vida.

Na Mitologia Nórdica o mito é representado pela tríade Urdh, Verdandhi e Skuld, as Nornas, tecelãs que fiam próximo ao poço entre as raízes da Árvore do Mundo. Elas fiavam e teciam o destino com uma miríade de fios e linhas (19).

Na Mitologia Germânica, observam-se os aspectos sombrios das Valquírias (19), que cantam e tecem o destino: são também fiandeiras. Com seu funesto e cruel pendor pela morte, tendo o sangue como matéria-prima, elas usam um tear espectral para tecer a morte dos guerreiros nos campos de batalha. Em (13), p.101, encontra-se um trecho de canção que as menciona:

Tece, tece, a teia de lanças. (...) Sua trama é feita das vísceras do gladiador e seu peso é grande, tantos são os crânios dos combatentes. (...) Já foi tecida a obra (...) sobre os quais recaiu o destino por nós imposto (...).

Considerações finais

O caminho que se constrói na vida é feito de escolhas conscientes ou não. Muitas situações acontecem e nem sempre é possível identificar o seu porquê. Às vezes são necessárias repetições de eventos para que seu significado possa ser compreendido. Vê-se um paralelo com o fio da vida, pois alguns aspectos da história humana (nascimento, infância, família de origem) formam a base, embora nem sempre haja consciência da existência desse fio. Os contos de fadas, muitas vezes, ilustram tal caminhar: têm a força de emocionar, resgatar sentimentos, estimular e mostrar novas possibilidades, colaborando para uma construção consciente ou não da vida. O conto “Fátima, a fiandeira”, aqui tratado, enquadra-se nessa descrição.

O processo de criar, tecer e bordar pode ser um ato prazeroso. Entretanto, assim como a gestação de uma ideia, pode trazer dor e sofrimento. Para criar é preciso coragem para desconstruir o que já está construído e organizado, para vivenciar o prazer e as dificuldades da realização e para, eventualmente, entrar em contato com aspectos mais sombrios da alma. Jung (21), p.29, atribuía às mãos uma certa “autonomia”. Segundo suas palavras, há pessoas “que nada veem ou escutam dentro de si, mas suas mãos são capazes de dar expressão concreta aos conteúdos do inconsciente”. Para (22), as tarefas de fiar e tecer são atividades ritualísticas que mobilizam e estruturam as forças da psique inconsciente.

O objetivo deste trabalho foi buscar, no conto “Fátima, a fiandeira”, o simbólico nesse ato de fiar e de tecer, bem como a participação das Deusas na construção desse tecido imenso chamado “vida humana”.

Uma das principais fontes para entender a tecelagem do ponto de vista simbólico foi (9). Segundo os autores, o tecido, o tear, a roca, o fuso e atividades como fiar e tecer são símbolos que designam muito do que rege ou afeta o destino dos homens. Porém a busca não se limitou a essa fonte; como qualquer tecido, após ler e reler o conto cada fio, cada nó, cada ponto da trama foi sendo entrelaçado, levando à busca sobre as atividades têxteis, as leituras de mitos sobre Deusas tecelãs

e outros contos. Também na psicologia junguiana foram encontradas as simbologias do fio, do tear, da agulha, da tecelagem, entendidas como metáforas da vida em diferentes culturas. Um traço comum a muitas das Deusas é a influência que elas possuem, no todo ou em parte, sobre o processo fecundação-nascimento-vida-morte.

No conto aqui tratado, Fátima enfrenta muitas dificuldades, mas a superação de cada uma delas resulta em conhecimento e habilidades novas relacionadas com o fiar, o tecer e o construir. Empreende longas viagens, em que tem que atravessar grande oceano. Por fim, ela tem a oportunidade de reunir esse capital acumulado na resolução de um problema anunciado em uma profecia milenar e apresentado a ela por um imperador.

Percebe-se que, quando Fátima atende o chamado, falando voluntariamente com o arauto do imperador, ela entra em contato com o arquétipo da mulher selvagem, isto é, como imagem primordial da mulher em sua ligação íntima com a natureza ao seu redor, com a sua própria natureza e com seu verdadeiro despertar feminino. Segundo (20), p.21:

Essas palavras, mulheres e selvagem, fazem com que as mulheres se lembrem de quem são e do que representam. Elas criam uma imagem para descrever a força que sustenta todas as fêmeas. Elas encarnam uma força sem a qual as mulheres não podem viver.

Esse arquétipo estimula a psique ao mergulho no relacionamento entre o consciente e o inconsciente para a assimilação de todos os aspectos da personalidade e a compreensão da própria natureza, despertando na mulher a busca pelo processo de individuação. A mulher selvagem é a origem do feminino; é a Baba Yaga, a força da vida-morte-vida, a intuição, a vidência, a escuta com atenção e coração, que se mostra maléfica ou benéfica, como o é a própria Natureza, simbolizando o poder da vida e conduzindo o ser humano à sua própria verdade (11) p.290.

Para cumprir a profecia junto ao imperador, Fátima foi resgatando seus conhecimentos. Ao não encontrar a corda, lembrou-se que ela mesma fiava a corda quando morava com o pai. Para o tecido, novamente relembra o tempo em que viveu com os artesãos: ela mesma tece o tecido. A tenda precisa de mastro; ela mesma constrói o mastro, pois havia trabalhado com um serralheiro. Para decidir o formato da tenda, Fátima lembrou-se daquelas que havia visto no mercado de escravos. O resultado é uma tenda grande e imponente erguida para o imperador.

Este conto desempenha uma função psíquica importante à compreensão (entendimento) de alguns conceitos da Psicologia Analítica relacionados com o processo de desenvolvimento da personalidade, auxiliando a psique a cumprir etapas de integração da persona, conscientização da sombra, confronto anima/animus e individuação.

O conto descreve simbolicamente as etapas da vida da jovem Fátima, que se vê sozinha após a perda dos pais. A heroína do conto busca o conhecimento de si mesma e as possibilidades de recursos adquiridos e aprendidos para descer e sair do inconsciente. Fátima, neste processo, vai confrontando os acontecimentos, precisando despir-se do que os pais esperavam dela (casar-se e seguir a mesma profissão). Isto caracteriza o processo da mudança da persona e o acesso a novos recursos internos, o que se dá pelo contato com a sombra.

A persona é, segundo (23), p.357, o “sistema de adaptação ou a maneira por que se dá a comunicação com o mundo. Cada estado ou cada profissão, por exemplo, possui uma persona”. Ela é necessária para o convívio social, formando-se por meio de uma relação do indivíduo com a sociedade.

No conto, Fátima passa por reveses que levam a períodos de desorganização e transformação. São elementos que fazem com que ela não viva conscientemente (sombra); eles “se unem ao inconsciente, formando uma personalidade parcial, relativamente autônoma, com tendências opostas às do consciente” (23), p.359.

O conto ainda levanta a problemática da mulher em relação ao seu masculino interior (animus). No início do conto, quando Fátima aceita a viagem com seus pais e ocorre o naufrágio, ela está ainda imersa no mundo parental. Sozinha, é adotada por um casal de tecelões, ainda inconsciente do outro que existe nela. Sendo raptada e vendida, Fátima entra em contato com o outro, o animus, o qual “basicamente, é a ideia de que toda mulher tem dentro de si um elemento contrassexual, um outro, um homem interior, uma alma parcial, um lado masculino” (24), p.72. Pode-se refletir sobre isso com relação ao árduo trabalho que a mulher tem com esta instância psíquica até que se torne consciente. O animus é caracterizado por aspectos de força, ato, verbo e sentido, que precisam ser conscientizados para que a mulher engendre a sua voz no mundo de forma criativa. O animus consciente ajuda a mulher a criar, realizar projetos, acessar o próprio espírito. É isso que vemos no conto. No processo de desenvolvimento feminino, Fátima vai lidando com vários projetos do animus, pelo confronto e aceitação consciente e ativa da sua história, até encontrar o imperador, estabelecendo uma relação entre a consciência individual e o inconsciente coletivo. Ela é solicitada para atingir esse estágio de desenvolvimento pelo seu Self.

A busca da individuação é a construção do Self, caracterizando a totalidade. Ele intermedia o consciente e o inconsciente. Para (25), p.127, “Self e o processo de individuação que ele engrena recentram a energia e a vida no interior. Então, nesse momento, produz-se uma introversão da libido que ativa outros conteúdos inconscientes e provoca uma inversão de valores. (...) a individuação não exclui a realidade exterior e o mundo, mas, ao contrário, ela o inclui.”

Para (26), p.23, “Tal como Jung o entendeu, o processo de individuação é, essencialmente, algo que só pode ocorrer num único indivíduo (...) e que sempre tem uma forma única.” Ainda (p.168): “(...) durante o processo de individuação a pessoa se depara inúmeras vezes com essas terríveis situações sem saída, em que se sente que tudo o que até então se experimentou de nada serviu, uma vez que se tem novamente que enfrentar outros apuros.”

No conto, a jornada de Fátima remete à circum-ambulação, que é um percurso circular em torno de um objeto. Encontram-se exemplos em diferentes culturas: por exemplo, os muçulmanos o fazem em torno da Caaba, a pedra sagrada de Meca, enquanto alguns ritos cristãos compreendem a volta do padre em torno do altar. Para (23), p.358, o círculo é o símbolo do self, que “compreende ao mesmo tempo o consciente e o inconsciente.” Nessa ótica, a circum-ambulação é um movimento concêntrico e progressivo em busca do self. No caso mais geral, a circum-ambulação ocorre guardando-se o centro do percurso sempre à direita; isso imita o movimento aparente do Sol (tal como visto no hemisfério norte). Encarado desta maneira, o movimento compreende uma descida para as trevas e uma ascensão em direção à luz (9), p.255.

Nos reveses e tragédias, Fátima aprendeu novas habilidades, o que lhe possibilitou, ao final, ser a única pessoa capaz de cumprir a profecia junto ao imperador. Ela reuniu as pontas soltas dos fios acumulados no processo de conhecimento e “teceu” até completar a tarefa. Atitude diferente daquela de Penélope, que passa o tempo todo a tecer mas nunca termina o trabalho, isto é, não coloca o nó que arremata o tecido.

Pode-se fazer um diálogo reflexivo entre a jornada de Fátima e a personagem Cinderela do conto dos Irmãos Grimm. Segundo (27), Cinderela é um conto muito antigo que ganhou, ao longo do

tempo, inúmeras versões, de modo que a heroína representa diversos aspectos do feminino. Na trama, Cinderela é bem-nascida, porém órfã de mãe; seu pai não tem papel importante. Criada por uma madrasta má e ressentida, com duas irmãs adotivas feias e invejosas, leva uma vida dura de tarefas domésticas que a deixam sempre suja de cinzas. Ela não tem perspectivas. A beleza de Cinderela só pode emergir graças à ação mágica de uma fada-madrinha que consegue fazer com que ela vá ao baile oferecido por um príncipe em busca de casamento.

Vê-se que, no conto, Cinderela cumpre um anseio comum às mulheres simples, isto é, realizar um bom casamento. Este era também o desejo dos pais de Fátima. Entretanto, para Cinderela esta passagem para a vida adulta chegou por meio de magia, não por méritos próprios. Há aqui diferença em relação a Fátima, que diz (2), p.128: “Tudo aquilo que aconteceu na minha vida, e que no momento me pareceu uma desgraça, contribuiu, na realidade, para minha felicidade final”.

Para finalizar, ressalte-se a importância dos contos na psicoterapia clínica, pois contribuem para a aproximação do mundo interno simbólico do paciente. O trabalho com os contos convida para o autoconhecimento e a transformação, permitindo que as dificuldades sejam elaboradas na imaginação, auxiliando na desconstrução de ideias pré-concebidas e na potencialização de novas possibilidades e caminhos. Para (26), p.193, “Os contos de fada parecem, de fato, exercer, no âmbito de um povo, uma função semelhante à dos sonhos, para o indivíduo. (...) Eles confirmam, curam, compensam, contrabalançam e criticam a atitude coletiva predominante, assim como os sonhos (...) a atitude consciente de um indivíduo.” Além disso, o uso de contos pode ser conjugado com outros recursos expressivos, como dramatização, desenhos e pinturas.

Ainda é interessante refletir acerca do simbólico do fio na análise. A palavra é o fio que vai narrando a história e tecendo lembranças da infância, adolescência e vida adulta, construindo uma grande teia da vida. A clínica é um espaço de transformação, onde o paciente pode expressar livremente seus sentimentos, continuamente criando, fiando e tecendo a matéria-prima, que é a sua própria vida.

O conto “Fátima, a fiandeira” traz o fio e a flexibilidade no tecer o caminho da individuação, invocando a presença das Deusas tecelãs, que nos inspiram, tecem num tempo indeterminado, que nos fascinam, nos incomodam e ao mesmo tempo fazem os cortes de fios necessários. No caminhar inspirado por elas espero ter formado uma bela tenda.

Referências

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2.Machado R. O violino cigano e outros contos de mulheres sábias São Paulo: Companhia das Letras; 2004.

3.Neto PEWC. A trama em atitude simbólica: um olhar da psicologia analítica de Jung sobre mãos que costuram, bordam e tecem. São Paulo; 2018.

4.Depret OR. De Torres, Teares e Tendas: Correlações entre o Feminino e o Tecer à luz da Psicologia Analítica. Revista de Arteterapia da Associação de Arteterapia do Estado de Sáo Paulo. 2019; 10-1: p. 69-92.

5.Shah I. Histórias dos dervixes. 2nd ed. Rio de Janeiro: Roça Nova; 2015.

6.Idries Shah Foundation. The Idries Shah Foundation. [Online].; 2021 [cited 2021 Janeiro 26. Available from: https://idriesshahfoundation.org/.

7.Wikipédia. Sufismo. [Online].; 2020 [cited 2021 Janeiro 26. Available from: https://pt.wikipedia.org/wiki/Sufismo.

8.Jung CG, von Franz ML, Henderson JL, Jacobi J, Jaffé A. O Homem e seus Símbolos. 6th ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; 1987.

9.Chevalier J, Gheerbrant A. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. 32nd ed. Rio de Janeiro: José Olympio; 2019.

10.Kast V. Jung e a psicologia profunda: um guia de orientação pática São Paulo: Cultrix; 2019.

11.Franz MLv. O feminino nos contos de fadas. 3rd ed. Petrópolis: Vozes; 2010.

12.Neto JCdM. Obra completa: volume único Oliveira Md, editor. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; 1994.

13.Neumann E. A Grande Mãe: um estudo fenomenológico da constituição feminina do inconsciente São Paulo: Cultrix; 2011.

14.Silveira Nd. Jung: vida e obra. 14th ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra; 1994.

15.Neumann E. Amor and Psyche - A Commentary on the Tale by Apuleius.

16.Brandão JdS. Dicionário Mítico-etimológico da mitologia grega Petrópolis: Vozes; 2014.

17.Doob PR. The Idea of the Labyrinth from Classical Antiquity through the Middle Ages. 2nd ed. Ithaca: Cornell University Press; 2019.

18.Alighieri D. A Divina Comédia. 2nd ed. São Paulo: 34; 2014.

19.Philibert M. Dictionnaire des Mythologies Manchecourt: Maxi-livres; 2000.

20.Estés CP. Mulheres que correm com os lobos: mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. 6th ed. Rio de Janeiro: Rocco; 1995.

21.Jung CG. Obra Completa 8/2 - A natureza da psique. 8th ed. Petrópolis: Vozes; 2011.

22.Whitmont EC. A busca do símbolo: conceitos básicos de Psicologia Analítica São Paulo: Cultrix.

23.Jung CG. Memórias, sonhos, reflexões. 9th ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; 1987.

24.Koltuv BB. A tecelã: uma jornada iniciática rumo à individuação feminina. 2nd ed. São Paulo: Pensamento Cultrix; 2020.

25.Thibaudier V. Jung, médico da alma. 1st ed. São Paulo: Paulus; 2014.

26.Franz MLv. A individuação nos contos de fada São Paulo: Edições Paulinas; 1984.

27.Robles M. Mulheres, mitos e deusas. 3rd ed. São Paulo: Aleph; 2019.

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