Autoengano “versus” Liberdade

Sílvio Lopes Peres

Jung

Autoengano “versus” Liberdade

Segundo o filósofo francês Étienne de La Boétie (1530-1563): “A natureza se recusa a dar aos homens um desejo forte. Trata-se da liberdade, um bem tão grande e tão aprazível que, perdida ela, não há mal que não sobrevenha e até os próprios bens que lhe sobrevivam perdem todo o seu gosto e sabor, corrompidos pela servidão. A liberdade é a única coisa que os homens não desejam; e isso por nenhuma outra razão (julgo eu) senão a de que lhes basta desejá-la para a possuírem; como se recusassem conquistá-la por ela ser tão simples de obter”, em “Discurso sobre a servidão voluntária” (http://www.culturabrasil.org/boetie.htm).

A obra do século 16, responde a seguinte questão: como alguém pode abrir mão da liberdade, somente porque é difícil mantê-la? Segundo La Boétie, o principal motivo para tal atitude: “Perdem a liberdade porque são levados ao engano, não são seduzidos por outrem, mas sim enganados por si próprios”.

Nascemos para ser livres, contudo, não resistimos a nos manter fiéis às ideias e opiniões próprias, devido à pressão social. Ceder, logo, é uma atitude enganadora.

Estamos acostumados a pensar que somos enganados pelos políticos, criminosos, pelo diabo, etc. Entretanto, segundo La Boétie, o autoengano é próprio da natureza humana. É arquetípico, ou seja, é um fator psicológico pronto para agir, autonomamente, todas as vezes que abrimos mão da atenção, do pensar cuidadoso antes de agir e da autocrítica.

Queiramos ou não, o autoengano tem início à medida que aceitamos as ideias e opiniões da consciência coletiva e, identificados com elas, adotamo-las sem questioná-las. É como se houvesse uma presença interior que não se interessa pela nossa liberdade, antes, engana-nos todas as vezes com a sensação de que seremos esmagados se não cedermos. (Se muitos dizem: “Sim, sim, sim”, como posso dizer: “Não, não, não”, ou vice-versa?) O assalto à liberdade vem de dentro. Carregamos o ladrão da liberdade em nossa alma.

Nessa situação, como que ficamos carregados de uma energia psíquica negativa, da qual procuramos nos livrar, pois sentimos não possuir forças para carregá-la. E, por temer sermos rejeitados e criticados, reprimimos qualquer movimento contrário. Trocamos a liberdade pela gaiola segura e confortável do grupo. Tememos a dúvida e queremos a “certeza” confessada pelos outros. Enfim, o autoengano.

O que fazemos quando descobrimos que o enganador somos nós mesmos?

Podemos começar perguntando: como é que eu contribuí para o que aconteceu, está acontecendo na minha família, na cidade, no meu país, no mundo para estar assim?

A capacidade de nos prevenir de nós mesmos está em falta, infelizmente. Não sabemos calcular os danos que podemos cometer contra nós mesmos. Somos impetuosos e impulsivos em nossa autoconfiança. É difícil perceber que o autoengano nos espreita. Não gostamos de pensar que não estamos destinados à paz e à tranquilidade mental. Na verdade, temos de nos manter vigilantes contra nós mesmos.

Precisamos manter o meio-termo entre as opiniões alheias e as pessoais, pois se fecharmos a questão, identificando-nos com uma delas, sem a mediação dialética, obstruímos a qualquer desenvolvimento posterior; resistimos ao novo, ao mais inteligente. Parafraseando a filósofa e psicanalista Viviane Mosé: Pessoas livres conseguem viver bem em qualquer lugar, mesmo quando muitos não resistem.

 

Sílvio Lopes Peres – Psicólogo Clínico – CRP 06/109971 – Analista Junguiano, membro do Instituto de Psicologia Analítica de Campinas (IPAC), da Associação Junguiana do Brasil (AJB) e da International Association for Analytical Psychology (IAAP) – (Zurique/Suíça)

Imagem: Joel Robison.

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