Acreditar-se ovelha sendo lobo é hipocrisia.

Sílvio Lopes Peres

Jung

Acreditar-se ovelha sendo lobo é hipocrisia

Em “Perversão: Uma Abordagem Junguiana”, ainda não traduzido para o português, a analista Fiona Ross apresenta a opinião de diversos autores acerca do tema da perversão humana. Aqui, destaco a afirmação de Donald Meltzer, que integra o referido texto: “A essência do impulso perverso é alterar aquilo que é bom em mau, preservando ao mesmo tempo a aparência de bom”.

A perversão, assim, se relaciona diretamente com o caráter da pessoa que se esforça “parecer” possuir um bom caráter, entretanto, este é falso. Então, estamos no campo da hipocrisia. A hipocrisia é um dos maiores problemas da vida em sociedade.

No tempo presente, marcado pelos ódios e preconceitos de toda espécie, podemos nos identificar com o mal, acreditando que estamos nos posicionando ao lado do bem. Isso acontece pelos seguintes motivos: fazer uma equivocada leitura do espírito de época; e, porque o Ego, como fator preponderante nas escolhas, pode comprometer a integridade do nosso caráter, pervertendo a nossa visão da realidade.

É como se precisássemos admitir que há um “lobo” (hipocrisia) dentro de nós, que não somos “ovelhas” (pessoas de bem e corretas) o tempo todo. Aliás, queremos e nos preparamos para encontrar alguém que possa ser acusado como “o lobo”.

Se considerarmos a perversão como um fator subjetivo atuante em nossa personalidade, ela pode proporcionar uma energia transformadora, trazendo elementos inconscientes para a consciência e, assim, transcendermos o problema da hipocrisia. Ao invés de sermos possuídos pelo “lobo”, nós podemos conhecê-lo intimamente. Com essa atitude provocamos uma enorme diferença transformadora.

Precisamos, portanto, ser capazes de objetivar o “lobo” relacionando-nos com ele, para só assim experimentar o que é ser “ovelha”, que tantas vezes é dilacerada. Desse modo, interferimos para que o “lobo” não fique isolado e ataque a “ovelha”.

Lobos e ovelhas são diferentes: o lobo tem pelos curtos e ásperos, dentes afiados, garras pontiagudas, bocarra insaciável por sangue e carne crua, uiva em noites escuras, perseguidor veloz, dissimulado, traidor. Já, por sua vez, a ovelha é dispersa - se desorienta com alguma facilidade -, cheira à mato, prefere os campos verdejantes e planos para se alimentar, seu balido é lamentoso e possui um caráter manso e suave, ingênuo, extremamente obediente, pois mesmo quando é violentamente tosquiada, ferida e morta não grita nem protesta.

Metaforicamente, estamos refletindo acerca da ampliação da consciência, pois precisamos perceber que o “rebanho” está cercado pela “matilha”, que o “redil” corre o risco de se transformar em “covil”, que “uivar” baixinho é muito diferente de “balir”, ou seja, que os até os “bons” podem aprender e a fazer o mal, quando os maus governam.

É possível acompanhar de perto nossos próprios “lobos”. Bem sabemos quando “uivamos”. O “uivo” é inconfundível. Aos nossos ouvidos sentimos quando “uivamos” e disfarçamos que estamos “balindo”. Porém, não dá para disfarçar o tempo todo.

Como identificar o conteúdo psicológico da hipocrisia?

Quando duvidamos de nossas próprias opiniões e percebemos a necessidade de argumentos mais consistentes, ainda que exijam uma maior elaboração intelectual, mas, ainda assim, mantemos as medidas extremadas defendidas, mesmo sabendo que não levam a nada; quando sentimos não ser possível continuar a dissimular nossas vulnerabilidades com mentiras, violência e força, porém, por negligência aos resultados, mantemos a posição insensata; quando evitamos a dialogar e respeitar sem preconceitos, a todos, e não somente aos que compartilham das mesmas ideias, sentimentos, crenças, ainda que sintamos que esse seria o melhor caminho, mas preferimos permanecer na cegueira, pois rejeitamos qualquer possibilidade de mudança.

“Uma diminuição da hipocrisia”, segundo C. G. Jung, “e um aumento do autoconhecimento só podem resultar numa maior consideração para o próximo, pois somos facilmente levados a transferir para nossos semelhantes a falta de respeito e a violência que praticamos contra nossa própria natureza” (Psicologia do Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 1980, 18).

Cuidemos para que nosso caráter não se torne um lobo, pois lobo em pele de ovelha continua sendo lobo. Acreditar-se ovelha sendo lobo é hipocrisia.

 

Sílvio Lopes Peres – Psicólogo Clínico – CRP 06/109971 – Analista Junguiano, membro do Instituto de Psicologia Analítica de Campinas (IPAC), da Associação Junguiana do Brasil (AJB) e da International Association for Analytical Psychology (IAAP) – (Zurique/Suíça)

(Texto de 2016 - Revisado)

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