Zeus, um pai devorador

Sílvio Lopes Peres

zeus

O arquétipo paterno é bipolar, ambíguo: guardião e fortaleza contra as influências do mundo exterior, porém, ao mesmo tempo, é devorador de seus filhos e filhas.

Observa-se o pólo negativo do pai, quando, incondicionalmente, exige que os filhos aceitem as suas formas de pensar, de sentir e de comportar-se, como se não existisse outras possibilidades de pensamento, sentimento nem de comportamento.

“O reflexo fenomenológico desse lado negativo do arquétipo do pai”, aponta o analista junguiano Murray Stein, “é uma consciência vinculada e submersa em convenções e hábitos, e um respeito ao dever definido pelas normas coletivas prevalecentes. Um dilúvio gástrico de valores, padrões de pensamento, gostos, disposições, atitudes e opiniões da cultura predominante dissolve qualquer traço de experiência individual e de reação espontânea” (Pais e mães: seis estudos sobre o fundamento arquetípico da psicologia da família (et al). São Paulo: Símbolo, 1979, p. 83).

A mitologia grega nos fala dos pais devoradores: Urano, Cronos e Zeus. Urano “enterra” os filhos no seio da mãe Gaia; Cronos “engole-os” ao nascerem; Zeus “rejeita” a todos, temendo perder o poder sobre o céu e a terra.

O temido e honrado “deus dos deuses”, o grande pai dos imortais e mortais, Zeus (grego) ou Júpiter (latino) determina-se a manter o domínio sobre sua “família”, o Olimpo. Apesar de sua descendência, tão numerosa quanto às aventuras eróticas com as deusas e mortais que conquistou, não admitia conviver com aquilo que pudesse vir deles.

Em relação às ideias revolucionárias e vivas, Zeus não as integra em suas potencialidades; seu ideal, tudo deve permanecer como sempre; ele 

estabelece, com força, as condições para que as estruturas vençam as novidades; destina a criatividade ao desaparecimento.

O jeito Zeus de ser pai inibe a fertilidade dos sentimentos, da capacidade de se relacionar com os outros, do desenvolvimento de novas formas e maneiras de resolver conflitos, estabelece como norma de vida o acomodamento de tudo e de todos às condições e situações que se apresentam, mesmo quando existem possibilidades transformadoras.

Com o lema: “vamos deixar assim, para ver como fica”; “sempre foi assim”; “panos-quentes resolvem”, "eu já vivi o bastante para saber o quê dá certo e o quê dá errado"; etc., o pai Zeus frustra os impulsos e as forças divergentes; desencoraja, embota a reflexão e o pensamento estratégico; ignora e asfixia o futuro, sem se incomodar de perdê-lo.

Se o pai Zeus refletir quererá deixar livre a criatividade, que renova todas as coisas, a começar de sua família, de sua vida pessoal.

Compreender, aceitar e lembrar isso não permite que a sua vida, nem a de sua família, fiquem congeladas emocionalmente, antes, permitirá o fluxo das novas energias de vida autêntica, que só as mudanças podem provocar em todos os seus entes queridos.

(Sílvio Lopes Peres – Psic. Clínico – CRP 06/109971 – Candidato a Analista pelo Instituto de Psicologia Analítica de Campinas (IPAC), membro da Associação Junguiana do Brasil (AJB), ambos filiados à IAAP – International Association for Analytical Psychology (Zurique/Suíça) - Fones: (14) 99805.1090 / (14) 98137.8535)

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