Pior que morrer é querer morrer

Sílvio Lopes Peres

Quando vou morrer

Quando eu vou morrer? A pergunta me deixa, no mínimo, curioso. Eu não sei a resposta. A menos que eu decida me matar. Só o suicida sabe quando vai morrer.

Mas, e, se eu perguntasse: Quando posso morrer? Talvez eu tenha a resposta. 

Enquanto eu tiver alguma coisa para fazer, não morrerei. Por isso é importante estar envolvido com alguma tarefa, qualquer uma que eu julgue importante. Fazer o bastante basta para não querer saber quando eu vou morrer. Se não tiver perspectivas de uma vida consciente, sou tragado para a morte, estou morto. Entretanto, onde está o “bastante”, qual é, como descobri-lo?

“Todos que amam verdadeiramente estão prontos a dar a sua vida pela coisa amada. E é isso que dá sentido à nossa vida: as coisas pelas quais estamos dispostos a morrer. As coisas que nos dão razões para morrer são as mesmas coisas que nos dão razões para viver”, reflete Rubem Alves (A festa de Maria. Campinas: Papirus e Speculum, 1996, p. 54).

O “bastante” está dentro de mim, naquilo que amo de verdade, que promove o desenvolvimento de Eros, não do Ego, mas de uma visão centrada na Psique, na Alma.

As dificuldades que a vida apresenta me desafiam a tomar uma atitude comigo mesmo, frente a elas, por causa de mim, sem disfarçar que geram angústias e desesperos. Só assim, posso ser digno de estar vivo, vivendo a vida com plenitude, com tudo que sou, valorizando tudo que sou por dentro, daquilo que ainda sou inconsciente sobre mim mesmo, quer dizer, daquilo que está no inconsciente, que sem tréguas se apresenta através da minha imaginação, fantasias e sonhos como muitas outras possibilidades de ser e que aguarda ser trazido para a consciência.

Outrossim, precisamos deixar livre o pensamento por analogias, associações e semelhanças elaboradas pelo inconsciente que são diferentes dos pensamentos lógicos e causais que a consciência egóica é capaz de operar. Somos subjetivos. Viver é manter a subjetividade. Nossa vida depende de nossa capacidade de imaginar, fantasiar, sonhar, contar histórias de amor sobre nós, para nós.

O primeiro autossacrifício não pode ser o suicídio, porque esta atitude destrói escandalosamente com todas as demais possibilidades de enfrentamento com aquilo que imaginamos, fantasiamos e sonhamos. Os psicólogos, especialmente aqueles que têm fundamento analítico, podem ajudar nesse processo.

É preciso ocupar-se com aquilo que está no inconsciente, seja bom e mal, luz e treva, vida e morte. Enquanto estivermos ligados e realizando a tarefa de combinar estes opostos, percebemos que não podemos morrer, ainda. Pior que morrer é querer morrer.

“O suicídio, por mais compreensível que seja humanamente, não me parece recomendável. Nós vivemos para alcançar o grau mais elevado possível de desenvolvimento espiritual e de conscientização. Enquanto a vida for possível, ainda que num grau mínimo, devemos agarrar-nos a ela e esgotá-la com vistas à conscientização. Interromper a vida antes do tempo é paralisar uma experiência que nós não iniciamos. Nós fomos jogados no meio dela e precisamos levá-la até o fim”, na reflexão de Carl Gustav Jung (Cartas. Vol. 2. Petrópolis: Vozes, 2002, p. 205).

(Sílvio Lopes Peres – Psic. Clínico – CRP 06/109971 – Candidato a Analista pela Associação Junguiana do Brasil (AJB/Campinas), filiada à IAAP – International Association for Analytical Psychology (Zurique/Suíça) - Fones: (14) 99805.1090 / (14) 98137.8535)

 

 

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