O Complexo de Jonas:

Compreendendo o Medo de Crescer

Complexo de Jonas

Por que mais pessoas não usam todo o seu potencial na vida? O que bloqueia internamente o seu caminho? No artigo a seguir, escrito em novembro de 1966, Maslow oferece uma resposta experiencial e intrigante, que tenta explicar por que algumas pessoas não conseguem alcançar a auto-realização.

A maioria dos psicólogos humanistas e existencialistas de hoje acredita que o impulso para o crescimento, evolução e realização de um indivíduo, o impulso para ser tudo o que se é capaz de ser, é um aspecto universal da natureza humana. Para examinarmos este ponto de vista com precisão, é necessário, obviamente, explicar por que a maioria das pessoas não atinge plenamente a sua dimensão interior – por que estas pessoas não se realizam.

O modelo mais conveniente que encontrei para abordar este problema é a velha noção freudiana envolvendo a psicodinâmica, ou seja, a existência de um impulso e a defesa contra a sua efetiva expressão. Assim, ao aceitarmos o postulado de que existe um impulso humano básico para o crescimento em direção à saúde, ao pleno humanismo, à auto-realização ou perfeição, deparamo-nos com a necessidade de analisar todos os bloqueios, defesas, evasões e inibições que se insurgem no caminho da tendência para o crescimento.

Por exemplo, é conveniente aplicar os termos freudianos “fixação” e “regressão”. Podemos nos valer dos resultados psicanalíticos da metade do século passado para compreendermos o medo de crescer, a interrupção do crescimento e até mesmo a renúncia favorecendo a regressão. Acho, no entanto, que os conceitos freudianos não são suficientes nesta área. Portanto, é preciso que se reformule muitos conceitos novos.

Quando nos detemos no conhecimento psicanalítico e transcendemos Freud, descobrimos, inevitavelmente, o que costumamos chamar de “consciente saudável”. Colocando de forma mais simples, nós não reprimimos somente os impulsos perigosos, desagradáveis e ameaçadores, reprimimos também, e muito frequentemente, nossos melhores e mais nobres impulsos.

Por exemplo, em nossa sociedade, há um certo preconceito contra a ternura. As pessoas geralmente se envergonham de ser altruístas, piedosas, gentis, amáveis e de ter ideias nobres como os santos. Obviamente, este desvio da melhor parte da natureza humana se manifesta, com mais freqüência, nos adolescentes do sexo masculino. Eles tendem a renunciar ferozmente a qualquer atributo que possa ser concebido como algo feminino, afeminado, frágil, ou delicado, tentando parecer totalmente severos, destemidos e frios.

Mas este fenômeno não se restringe somente aos adolescentes masculinos. Infelizmente, é difundido em toda a nossa sociedade. Geralmente a pessoa inteligente é ambivalente em relação à sua inteligência. Em muitas vezes, ela acaba por renegá-la, tentando parecer uma pessoa comum – tentando, por assim dizer, escapar ao seu destino, como fez o personagem bíblico Jonas. Geralmente, leva metade de uma vida para que um indivíduo chegue a um acordo com o seu próprio talento, aceitando-o integralmente e se libertando, ou seja, sendo pós-ambivalente em relação ao seu talento.

Descobri algo relacionado ao assunto que se aplica aos indivíduos mais fortes: aqueles que são líderes, chefes e comandantes natos. Eles também se atrapalham na forma de olhar e lidar com eles mesmos. As defesas contra a paranóia – ou melhor dizendo, contra a arrogância e o orgulho nefasto – fazem parte destes conflitos internos. Por um lado, o indivíduo possui uma tendência normal para a expressão aberta e alegre, para realizar o que há de melhor em si. Mas, em muitas vezes, ele se vê em situações onde é preciso mascarar estas capacidades.

Em nossa sociedade, o indivíduo superior, geralmente, aprende a vestir um capuz de falsa modéstia e humildade, com as características de um camaleão. No mínimo, ele aprende a não dizer abertamente o que pensa de si mesmo e de sua capacidade. Em nossa sociedade, não é permitido a um sujeito muito inteligente afirmar: “Sou extremamente inteligente.” Esta atitude soa ofensivamente. É interpretada como ostentação e costuma despertar reações contrárias, hostilidade e até mesmo agressões.

Assim, uma declaração de superioridade – mesmo que seja justificada, realista e comprovada – geralmente é recebida pelos outros como uma afirmação do domínio do locutor com concomitante solicitação da subordinação do ouvinte. Não é de surpreender, portanto, que o ouvinte rejeite esta declaração e se torne agressivo. Este parece ser um fenômeno comum a muitas culturas do planeta. E assim o indivíduo superior acaba se subestimando para evitar o contra-ataque de terceiros.

O problema atinge a todos. Para sermos criativos, realizarmos nossos objetivos e cumprirmos nossas potencialidades, devemos nos sentir fortes e termos amor próprio. Por conseqüência, o atleta, o dançarino, o músico ou o cientista que são superiores se vêem forçosamente envolvidos num conflito entre sua tendência natural e intrafísica para o crescimento em direção à sua dimensão máxima e ao entendimento adquirido socialmente de que as outras pessoas tendem a olhar sua real dimensão como uma ameaça à auto-estima delas.

O indivíduo neurótico pode ser visto como um ser tão preocupado com a possibilidade da punição – tão receoso da hostilidade – que acaba por desistir de suas maiores capacidades, de seu direito de crescer até a altura máxima. Para evitar as punições, torna-se humilde, subserviente, cordato e até mesmo masoquista. Em resumo, devido ao medo da represália por ser superior, o indivíduo se torna inferior, abrindo mão de boa parte de sua capacidade, ou seja, reduz voluntariamente sua capacidade de humanização. Em nome da segurança e proteção, ele enfraquece e limita a si próprio.

A natureza mais profunda de uma pessoa não pode ser negada. Se ela não se mostra de forma direta, espontânea, desinibida e solta, acabará se expressando inevitavelmente de uma forma mascarada, velada, ambígua, até mesmo furtiva. As capacidades perdidas irão, no mínimo, se manifestar em sonhos confusos, em livres associações sem fundamento, em estranhas palavras que escapam e em emoções inexplicáveis. Para este indivíduo, a vida vai se tornar uma luta permanente, um conflito muito familiar à psicanálise.

Se a pessoa neurótica renunciou abruptamente ao crescimento de suas potencialidades e à auto-realização, ela vai parecer tipicamente muito boa, modesta, obediente, tímida e anulada. Em sua forma mais dramática, esta renúncia, e suas desastrosas conseqüências, pode ser percebida na personalidade dissociada – a “múltipla personalidade” -, na qual as possibilidades negadas, reprimidas e suprimidas aparecem, por fim, na forma associada de uma outra personalidade.

Em todos estes casos, a personalidade que se apresenta antes da partição era a de uma pessoa totalmente convencional, obediente, passiva, modesta, que nada deseja para si, ou seja, uma pessoa impedida de gostar de si própria e de ser egoísta no sentido biológico. Nestes exemplos, a nova personalidade que emerge dramaticamente, é geralmente mais egoísta, fútil, imaturamente impulsiva e menos capaz de se satisfazer.

O que os indivíduos mais superiores fazem, portanto, é afirmar um compromisso com uma sociedade mais ampla. Eles conseguem alcançar seus objetivos e avançam em direção à auto-realização. Parecem tentar expressar e apreciar seus talentos e habilidades. Porém, também mascaram esta tendência, com um fino verniz de aparente modéstia e humildade, ou mesmo com o silêncio.

Este modelo vai nos ajudar a compreender a pessoa neurótica sob um outro ângulo, a compreendê-la, sobretudo, como alguém que está buscando simultaneamente seu direito de total humanismo, o crescimento em direção à auto-realização e à plenitude de seu ser, e, ainda, como alguém que, limitado pelo medo, irá disfarçar ou esconder seus impulsos normais, contaminado-a com uma mistura de culpa, através da qual ele alivia seus temores e se concilia com terceiros.

Colocando a questão mais simplesmente, a neurose pode ser vista como uma contenção ao mesmo impulso de crescimento e expressão que todos os animais e plantas experimentam, porém acrescido do medo. E assim, o crescimento acontecerá de maneira tortuosa, incerta, incômoda. Pode-se dizer, então, que este indivíduo está “fugindo do crescimento”, conforme observou sabiamente o psicólogo Angyal (1965).

Se admitirmos que o centro do Eu é, pelo menos em parte, biológico, em termos de anatomia, constituição, fisiologia, temperamento e de comportamentos biologicamente conduzidos, também podemos afirmar que há uma fuga deste destino biológico. Pode-se dizer, ainda, que o indivíduo que foge de seu Eu está fugindo de sua vocação, de sua missão, de seu desígnio.

Por esta razão, o historiador Frank Manuel chamou o fenômeno de Complexo de Jonas. Como é sabido, a passagem bíblica sobre Jonas conta que recebeu um chamado de Deus para profetizar, mas temia assumir esta missão. Jonas tentou fugir. Mas para qualquer lugar que corresse, não encontrava esconderijos. Finalmente, Jonas entendeu que deveria aceitar seu destino. Ele tinha que cumprir a missão para a qual tinha nascido.

Neste sentido, cada um de nós é chamado para uma missão particular, condizente com a nossa natureza. Fugir dela, temê-la, dividir-se ou tornar-se ambivalente são “reações neuróticas”, no sentido clássico. Podem ser consideradas como doença uma vez que geram ansiedade e inibições, produzem sintomas clássicos de neurose e sintomas psicossomáticos de toda ordem, criando grandes e debilitantes defesas.

Sob uma outra perspectiva, é possível olhar estes mesmos mecanismos como exemplos de ímpetos em direção à saúde, à auto-realização e ao total humanismo. A diferença entre um indivíduo diminuído, que anseia calado pelo total humanismo mas nunca ousa realizá-lo e o indivíduo liberado, com pleno crescimento em direção ao seu destino, é simplesmente a diferença entre o medo e a coragem.

Pode-se dizer que a neurose é um processo de realização sob a égide do medo e da ansiedade. Assim, ela pode ser comparada ao mesmo processo saudável universal, só que obstruído e acorrentado. A pessoa neurótica pode ser vista como alguém que se movimenta em direção à auto-realização, que manca ao invés de correr, que caminha em ziguezague ao invés de andar em linha reta.

 

Regina Barreto

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