O Advogado do Diabo

A transgressão dos limites humanos x essência humana

Advogado do Diabo

O Advogado do Diabo (Devils Advocate – 1997 – direção de Taylor Hackford) relata a trama de Kevin Lomax (Keanu Reeves), um jovem advogado de sucesso que nunca havia perdido um caso. Lomax tem o poder de seduzir o júri, que sempre se rende aos seus argumentos e absolve seus clientes. Durante um julgamento, Lomax está certo de que seu cliente é culpado por molestar crianças. Entretanto, ao invés de enfrentar sua consciência, ele acaba se rendendo ao impulso de continuar como vencedor e consegue inocentar o acusado de forma brilhante. Seu desempenho atrai a atenção de John Milton (Al Pacino) o dono da maior firma de advocacia em Nova York. Lomax então é convidado para trabalhar com ele, usufruindo de um alto salário e muitos benefícios. Apesar da desaprovação de sua mãe, Alice Lomax (Judith Ivey), uma religiosa que compara Nova York à Babilônia, Lomax se muda para Nova York com sua esposa Mary Ann (Charlize Theron). 

O ambiente de sedução toma conta de Lomax: um imponente apartamento, lindas mulheres e executivos poderosos que trabalham para John Milton. Não tarda até que a esposa de Lomax se sinta oprimida, tendo visões e manifestações demoníacas. Mary Ann vivencia a insanidade. 

“O Advogado do Diabo” nos presenteia com uma trama altamente simbólica, abordando diferentes aspectos e possibilitando análises nas áreas da Psicologia, da Filosofia, das Religiões e das Artes. 

O termo “Advogado do diabo” (advocatus diaboli), refere-se a uma pessoa que discute a favor de um ponto de vista no qual não acredita, mas que o faz simplesmente para apresentar um argumento. É alguém que defende fortemente uma ideia contra outra posição qualquer, mais pela argumentação em si do que por uma real discordância com a posição (WARBURTON, 2011). 

A obra evoca um sentido literal do termo, já que o protagonista Lomax é, de fato, um advogado a serviço do Diabo.

O filme apresenta algumas pequenas alusões a John Milton, autor de um dos mais importantes poemas épicos da literatura universal, o “Paraíso Perdido”, como a famosa citação "Melhor reinar no inferno do que servir no Céu". John Milton é também o nome do personagem diabólico interpretado por Al Pacino.

A obra também é repleta de símbolos religiosos e pagãos que são colocados de forma sutil e pontual, o que mereceria uma análise à parte. Buscarei analisar alguns tópicos, sem a intenção de esgotar a infinidade de análises possíveis, mas de forma a suscitar reflexões. 

Hybris – A transgressão dos limites humanos

Durante toda a trama, evidenciamos fortemente a transgressão dos limites humanos. Lomax possui poderes demasiado extraordinários e acaba por desrespeitar sua condição essencialmente humana. 

Deparamo-nos então com o processo chamado de hybris. Hybris designa, em grego, toda espécie de desmedida, de exagero ou de excesso no comportamento de uma pessoa: orgulho, insolência, arrebatamento etc. Bastante empregado na filosofia moral, esse termo se opõe a medida, equilíbrio (JAPIASSÚ, 2008).

Segundo BRANDÃO (2000), a Hybris é uma violência do homem contra os deuses, por ter ultrapassado a sua medida (métron) como ser humano. A hybris desencadeia a némesis (ciúme divino e consequente punição pela desmedida praticada). A punição leva o homem, através da áte (cegueira da razão) a agir de modo que tudo que faça o conduza à desgraça inevitável, realizando apenas ações que o levem a agir contra si mesmo, caindo nas garras da moira (destino cego). 

Segundo LEITE (2010), o herói possui um poder que o aproxima demais dos deuses, e acredita ter o direito de realizar plenamente toda a demanda de sua força divina. Porém, nas mãos humanas do herói, esta força se torna muitas vezes incontrolável, e as consequências podem ser desastrosas e até criminosas. 

Lomax foi o herói bem intencionado que se deixou dominar por excessos afetivos e por paixões irracionais. Seu Ego inflou a tal ponto que se identificou com o Self. 

JUNG (2008) alertou que é sempre perigoso quando o Ego fica inflado ao ponto de se identificar com o Self: esta é uma forma de hybris.  Desta forma, não é possível pensar em processo de Individuação, uma vez que não existe diferenciação entre o indivíduo e a imagem de Deus. 

O Bem e o Mal – forças antagônicas ou complementares?

Lomax se tornou um Deus a serviço do Diabo. O conceito de Bem e Mal e o confronto entre essas duas forças remete-nos a uma reflexão ainda mais cuidadosa. O que é o Bem? O que é o Mal? Onde residem estas forças? São, de fato, antagônicas? O confronto entre Lomax e John Milton, em que Lomax se mata a fim de derrotar Milton, o Diabo, faz-nos refletir sobre como essas duas forças coabitam em nosso psiquismo. Mesmo que não desejemos, o escuro, a sombra e o mal habitam nossa psique junto com o bem: esta é a essência humana, constituída de polaridades, cabendo a cada um as decisões morais e a capacidade de reconhecer – e trabalhar – o mal em si mesmo. 

A delicada questão da Sombra

Lomax deve confrontar seu pai – Diabo – a sombra de sua personalidade. JUNG demonstrou que “a sombra projetada pela mente do indivíduo contém os aspectos ocultos, reprimidos e desfavoráveis da sua personalidade. Mas a sombra não é apenas o simples inverso do ego consciente. Assim como o ego contém atitudes desfavoráveis e destrutivas, a sombra possui algumas boas qualidades – instintos normais e impulsos criadores. O ego, porém, entra em conflito com a sombra. Na luta travada pelo homem para alcançar sua consciência, este conflito se exprime pela disputa entre o herói arquetípico e os poderes cósmicos do mal” (in HENDERSON 2000). Este poder cósmico do mal poderia ser representado pelo Diabo. Na mitologia, habitualmente o herói vence sua luta contra o mal, mas, nesta obra, o herói cede ao Diabo. 

JUNG ainda completa que, para a maioria das pessoas, “o lado escuro ou negativo de sua personalidade permanece inconsciente. O herói, ao contrário, precisa convencer-se de que a sombra existe e que dela pode retirar sua força. Deve entrar em acordo com o seu poder destrutivo se quiser estar suficientemente preparado para vencer o dragão — isto é, para que o ego triunfe precisa antes subjugar e assimilar a sombra” (in HENDERSON 2000).

Lomax permanece sob o domínio da sombra, embora tenha tentado se desvencilhar dela. A ambição o conduziu a um excesso de confiança, levando-o a identificar-se com sua própria sombra.

“Deixar o palco” – muito mais que uma escolha 

A obra coloca-nos vivamente a questão do livre arbítrio. Como diz o personagem Milton, “o palco estava apenas preparado e podemos deixa-lo a qualquer momento”. Será?

Lomax fechou seus olhos para sua virtude, optou por “manter-se no palco” e entregou-se à expressão de seus instintos, sendo a vaidade um deles. Se a ética é deixada de lado, o indivíduo é reduzido ao instinto na solução de problemas. Desta forma, está dissociado de seu poder de discernimento e distante de seu processo de Individuação. Lomax estaria preparado para “deixar o palco”?

O confronto com a sombra, com os nossos “diabos internos”, é um dos primeiros aspectos do processo de individuação e para isso é necessário um ego bem estruturado para reconhecer que tudo aquilo que projetamos nos outros. 

A meu ver a questão do livre arbítrio vai muito além de nossa capacidade de escolha. É necessário haver uma estrutura de ego, um certo “atrevimento”, desejo e humildade para entrar em contato com nosso lado mais escuro e sombrio. 

Muitas vezes a vida nos prepara “palcos” – nossos “dilemas morais” de cada dia. Sejam eles de luz ou de sombras, cabe a cada um aceitar ou recusar a árdua tarefa de olhar para si mesmo, com todos os deuses e demônios que habitam nossa alma. Enfim, cabe a cada um o exercício de buscar nossa pura e simples essência humana.

 

Referências Bibliográficas

BRANDÃO, Junito de Souza. Dicionário Mítico-Etimológico da Mitologia Grega. Petrópolis: Vozes, 2000.

HENDERSON, Joseph L. (2000)  “Os mitos antigos e o homem moderno” in JUNG, Carl Gustav. O homem e seus símbolos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p. 104-157.

JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis: Vozes, 2008.

LEITE, Isabela Fernandes Soares. Criação, Hybris e Transgressão na Mitologia Heróica. Anais do XVIII Congresso da AJB – Criação. Curitiba-PR, 2010.

WARBURTON, Nigel. Pensamento Crítico de A a Z: Uma Introdução Filosófica. Tradução de Eduardo Francisco Alves. Rio de Janeiro: José Olympio, 2011.

 

Erika Gonçalves Cardim

Psicóloga - CRP: 06/65061

Especialista em Psicologia Analítica (Junguiana)

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