"Baleia Azul” está no fundo da alma

Sílvio Lopes Peres

Baleia Azul

Em “Uma dificuldade no caminho da psicanálise”, artigo publicado em 1917, que consta da Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas, Sigmund Freud afirma que a humanidade sofrera, até então, três golpes científicos. 
O primeiro foi o “golpe cosmológico”, com o heliocentrismo de Nicolau Copérnico (1473-1543), ao apontar que os planetas giram ao redor do Sol. Isto significou a derrota do geocentrismo que defendia a Terra como o centro do universo.
Depois veio Charles Darwin (1809-1882), com o “golpe biológico”, ao mostrar a espécie humana como resultado da evolução de animais.
Na sequência, o próprio Freud (1856-1939), desferiu o “golpe psicológico”, com a descoberta do inconsciente, o “penso, logo existo” cartesiano, ficou relativizado.
Entretanto, Carl Gustav Jung (1875-1961), lançou o último, ao menos até o presente momento, o “golpe Arquetípico”.
Jung demonstrou, a partir das experiências, sejam sonhos e fantasias relatadas por seus pacientes, cujos conteúdos não poderiam ser localizados em suas experiências pessoais, se relacionavam com as narrativas e temas religiosos encontrados em muitas culturas, inclusive as mais remotas.
Em todo tempo, nos havemos com os arquétipos, pois funcionam como os elementos formadores da estrutura do inconsciente. Em sua infinidade, além de serem como alicerces infra-estruturais da psique, organizam e orientam a consciência.
Entre eles, Jung destaca ao que chamou de Si-mesmo ou Self. 
“O Si-mesmo não é apenas o ponto central, mas também a circunferência que engloba tanto a consciência como o inconsciente. Ele é o centro dessa totalidade, do mesmo modo que o eu é o centro da consciência” (Psicologia e alquimia. Petrópolis: Vozes, 1990, p. 51. Obras Completas: Vol. XII, § 44).
Sendo assim, o Si-mesmo é o arquétipo mais importante da psique e, cabe à consciência reconhecê-lo, ainda que lhe pareça diferente, provoque estranheza e exerça alguma oposição. Neste sentido, o Self pode aplicar um golpe ao ego, quando este assume uma postura desmedida, vai além dos seus próprios limites, como vulgarmente dizemos: “Dá o passo maior que a perna”, ou seja, considera-se arrogante e presunçosamente o único arquiteto do complexo fenômeno da consciência.
Com isto, podemos considerar que o assassino e violento esquema “Baleia Azul” está revelando um dos aspectos mais terríveis deste Parceiro Invisível com quem compartilhamos a vida, o Si-mesmo. 
O “golpe arquetípico”, que nos toma como um todo, tanto consciente quanto inconsciente, fere, derruba, humilha e pode ser fatal quando não é reconhecido, mas desprezado pelo frágil e pequenino ego dos adolescentes e jovens, ainda em formação, graças a uma assoberbada autoconfiança, própria desta fase da vida, até, estimulada pela negligência ou excesso de proteção por parte dos pais.
O Si-mesmo nos coloca diante de exigências éticas práticas. Quer dizer, não podemos confiar demasiadamente em nossas capacidades conscientes. Antes, cabe-nos acolher, atender e executar tarefas que ultrapassam as nossas próprias vontades morais. 
Porém, caso o eu interprete como “bem sucedida” a fuga de seus deveres impostos pelo Si-mesmo, fica sujeito a sofrer as consequências desta decisão. Assim, Jung afirma: “A vivência do Si-mesmo é uma derrota do eu” (Mysterium Coniunctionis. Petrópolis: Vozes, 1989, p. 303. Obras Completas: Vol. XIV/2, § 433).

 

Sílvio Lopes Peres – Psic. Clínico – CRP 06/109971 – Candidato a Analista pela Associação Junguiana do Brasil (AJB/Campinas), membro da International Association for Analytical Psychology (Zurique/Suíça) - Fones: (14) 99805.1090 / (14) 98137.8535

Ilustração: Tlingit - Natsalane (Whale Rider) - Norm Jackson

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