A Grande Mãe

Sílvio Lopes Peres

Silvio

A nossa sobrevivência subjetiva no mundo não depende somente da nossa mãe pessoal nem de seu caráter, mas somos influenciados por um arquétipo - um padrão presente em todos os lugares e tempos históricos. Quer dizer, cada um de nós é como é, graças a uma forma pré-existente de mãe que, primeiro, atuou fortemente em nossos antepassados e depois sobre cada um de nós. 
O arquétipo da Grande Mãe não pode ser reduzido à nossa mãe pessoal, ou a qualquer outra pessoa que tenha características de mãe ou faça a sua vez.
Neste Dia das Mães, enaltecemos o pólo positivo deste arquétipo, em nossas homenagens: a capacidade de gerar a vida e sua fertilidade; a solicitude e a bondade especialmente nos primeiros momentos de vida; a sabedoria, muitas vezes intuitiva, nos momentos que buscamos seus conselhos; a proximidade com o Sagrado, considerada como proteção contra os perigos que nos rodeiam, etc.
Entretanto, o arquétipo da Grande Mãe também possui um pólo negativo, como pode ser percebido nos famosos contos de fadas dos irmãos Grimm: “João e Maria” e “Branca de Neve", ao narrar a natureza da relação mãe-filho: ora a mãe nos leva a vivenciar dificuldades, abandonos, sofrimentos e a morte – situações metaforizadas na madrasta-mãe, na bruxa travestida de “boa mãe” ou em nossas “rainhas-mães”.
Como afirma o médico e psicólogo analítico alemão Erich Neumann (1905-1960): “É à mãe que a criança dirige sua demanda de remoção do medo, e quando o medo não é removido, a mãe é percebida como a mãe “terrível” (O medo do feminino. São Paulo: Paulus, 2000, p. 225). 
Mas, isto não quer dizer que a mãe seja, pessoalmente, culpada por isto. Simplesmente a criança não possui condições de entender que a mãe é inocente. 
Para Neumann, a mãe revelar-se “terrível”, também é uma experiência arquetípica, pois independe do seu comportamento, é parte do processo de maturidade psicológica.
Quer dizer, necessariamente as mães “são terríveis” queiram ou não queiram, gostem ou não gostem. É impossível não sê-lo.
Mas, ainda segundo Neumann, se permanecermos cultivando a figura idealizada da boa mãe, o lado positivo do arquétipo, negando seu lado “terrível”, por temer as consequências, como o inevitável sentimento de culpa, não só podemos apresentar “neuroses típicas de ansiedade, e a fobias, mas também, e especialmente, a vícios, e, se o ego for destruído de maneira extensa, a psicoses” (p. 233).
A nossa realização como pessoas depende, e muito, de aceitarmos o lado “terrível” de nossas mães, ou como nos ensinam os contos: encontrar sozinhos o caminho de volta para casa, guiando-nos pela riqueza interna que os sofrimentos nos fazem encontrar e realizar um trabalho interior com os sentimentos de culpa, enérgica e amorosamente, representados na atuação dos anõezinhos e do príncipe.
Mães, vocês precisam prosseguir em seu próprio desenvolvimento psicológico e isto passa, necessariamente, em se apresentar aos filhos como uma pessoa com um ego mais forte, menos regressivo ou subdesenvolvido, e neste processo, os seus maridos podem contribuir para que toda a família seja bem sucedida nesta experiência.

 

Sílvio Lopes Peres – Psic. Clínico – CRP 06/109971 – Candidato a Analista pelo Instituto de Psicologia Analítica de Campinas (IPAC), membro da Associação Junguiana do Brasil (AJB), ambos filiados à IAAP – International Association for Analytical Psychology (Zurique/Suíça) - Fones: (14) 99805.1090 / (14) 98137.8535

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