A percepção que nos salva da perversão

Sílvio Lopes Peres

Silvio

Toda hierarquia se sustenta com a desigualdade. Quanto mais forte e estruturada a hierarquia, mais intensa e ampla a desigualdade. A desigualdade mantém a hierarquia.
Os ocupantes da hierarquia ambicionam se apropriar de recursos, riquezas e meios de controle, para silenciar qualquer forma de resistência e oposição. Assim, tal perversão nos lança a níveis incivilizados, isto é, regredimos aos instintos, aos impulsos mais primitivos da humanidade.
Esta situação gera a seguinte realidade: ao negar a responsabilidade de participação no processo de apropriação de meios de controle, os ocupantes da hierarquia acreditam que tudo está ocorrendo dentro da maior normalidade; aqueles que estão no “andar de baixo” encaram como destino o sofrimento gerado por esta situação, aceitando, passivamente, como destino um estar acima do outro. 
Psiquicamente esta realidade social gera o sentimento de ódio; violência, insultos verbais e físicos, raciais e políticos, são legitimados. O irmão passa a ser sentido como inimigo a ser vencido, ferido. Viver em comunidade perde sentido.
A hostilidade abre campo a todas as atrocidades e injustiças, gerando a ideia hipócrita de ser necessário, para sobreviver, renunciar a percepção de que a hierarquia e a desigualdade que ela gera precisa ser aceita como normal, natural.
Por que não nos perguntamos para onde essas emoções querem nos levar? Por que evitamos nos aproximar das emoções que as polaridades, superior e inferior, nos provocam? Estamos dispostos a sofrer os efeitos devastadores e vergonhosos de tal perversão? Observamos e não sentimos o que estamos provocando contra nós mesmos?
Estamos matando a percepção que nos salva da perversão. “A essência do impulso perverso é alterar aquilo que é bom em mau, preservando ao mesmo tempo a aparência de bom”, conforme o psiquiatra Donald Meltzer (Perversão: Uma abordagem junguiana, ainda não traduzido (Fiona Ross. London: Karnac Books, 2013, p. 53).
Passivamente, estamos permitindo que uma anestesia mortal seja aplicada sobre a percepção de que nem a hierarquia nem a desigualdade são naturais e/ou normais. Esse envenenamento da percepção está nos jogando ao modo de viver mais perverso: anular qualquer possibilidade de alterar a realidade, por que é aparentemente bom deixar tudo como está, que é inútil lutar, e que o outro deve ser desconstruído.
Um fictício self está sendo mantido, fortalecendo a hierarquia, massacrando os que vivem na desigualdade, diversificando e implantando novas formas de exclusão aos diferentes, empobrecendo a vida psicossocial brasileira.
“A experiência da alteridade é inquietante, desafiadora, e começa com o irmão. O campo do Outro é vasto, cheio de prazeres e dores. Tanto do ponto de vista pessoal, quando do ponto de vista coletivo, as possibilidades do arquétipo fraterno são imensas: solidariedade, amizade, entendimento, lealdade, aceitação. Também grandes são suas feridas: rivalidade, inveja, hostilidade, autoritarismo, guerras civis, intolerância, preconceito”, afirma o analista junguiano e escritor Gustavo Barcellos, em O Irmão: psicologia do arquétipo fraterno (Petrópolis: Vozes, 2009, p. 10).

 

Sílvio Lopes Peres – Psic. Clínico – CRP 06/109971 – Candidato a Analista pela Associação Junguiana do Brasil (AJB/Campinas), filiada à IAAP – International Association for Analytical Psychology (Zurique/Suíça) - Fones: (14) 99805.1090 / (14) 98137.8535

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