A Menina no Pais das Maravilhas - II

Análise Junguiana das Personagens

A Menina no mundo das Maravilhas

Resumo

  O presente artigo tem como objetivo apresentar uma análise das personagens principais do filme “A menina no país das maravilhas” a partir da Psicologia Analítica Junguiana, com enfoque nas representações da criança, dos pais e do analista. 

O filme tem como título original “Phoebe in Wonderland” (2009), dirigido por Daniel Barnz e conta a história de Phoebe, uma menina de nove anos, sensível e questionadora, cujo comportamento peculiar é, muitas vezes, incompreendido pela família, professores e colegas da escola. Em meio a seus conflitos internos, Phoebe vive o mundo real e a fantasia, de maneira simbiótica, como forma de lidar com suas dificuldades. As pessoas reais que ocupam um lugar significativo na vida de Phoebe representam, igualmente, personagens do conto “Alice no país das maravilhas”.

A forma como o inconsciente pessoal estrutura a relação entre as pessoas reais e as características das personagens simbólicas, é de suma importância na compreensão do processo psicológico que busca, em última análise, tornar-se consciente. A análise das personagens principais do filme possibilitou o a reflexão sobre a importância do trabalho com elementos arquetípicos e simbólicos, além de representações dos conteúdos da Sombra pessoal e a importância do reconhecimento e do tornar conscientes nossos aspectos sombrios. A análise das personagens também aponta para a importância da análise psicológica com crianças, a relevância do que representa um personagem ou herói no imaginário infantil, revelando quanto os personagens do mundo imaginário podem ser grandes aliados no processo de superação de conflitos na infância.  

Palavras-chave: Teoria Junguiana, Sombra, Ego, Análise infantil 

Introdução

O filme “A menina no país das maravilhas” apresenta elementos do conto “Alice no país das maravilhas”, originalmente escrito em 1865 pelo reverendo e escritor Charles Lutwidge Dodgson, sob o pseudônimo de Lewis Carroll.

O conto relata a história de uma menina chamada Alice, que cai numa toca de coelho que acaba por transportá-la a “um lugar fantástico povoado por criaturas peculiares e antropomórficas, revelando uma lógica do absurdo característica dos sonhos. Este está repleto de alusões satíricas dirigidas tanto aos amigos como aos inimigos de Carroll, de paródias a poemas populares infantis ingleses ensinados no século XIX e também de referências linguísticas e matemáticas frequentemente através de enigmas que contribuíram para a sua popularidade” (Wikipedia, 2016).

Nos contos em geral, encontramos elementos que, de certa forma, remetem a estruturas mais elementares de nossa psique. Identificamo-nos com um ou outro personagem. Uma infinidade de sentimentos nos inunda. Isto ocorre porque o conto desperta imagens e conteúdos universais, que estão adormecidos nas camadas mais profunda da psique. Os contos contem elementos arquetípicos, que são imagens profundamente impressas no inconsciente coletivo e que se refletem em vários aspectos da vida humana. Para Jung, "no concernente aos conteúdos do inconsciente coletivo, estamos tratando de tipos arcaicos - ou melhor - primordiais, isto é, de imagens universais que existiram desde os tempos mais remotos” (2002, p. 16).

O conto “Alice no país das maravilhas” contém muitos elementos simbólicos que merecem uma análise aprofundada à parte. De certa forma, esta história despertou em Phoebe, a protagonista do filme, elementos mais profundos de seu psiquismo. A partir daí, o inconsciente pessoal da criança foi estruturando a relação entre as pessoas reais e as características das personagens simbólicas, como forma de lidar com seus próprios conflitos internos. 

Analisamos, a seguir, os personagens principais do filme “A menina no país das maravilhas”, com ênfase na criança, seus pais e seu analista, assim como seu personagem correlato do conto “Alice no país das maravilhas”. 

A identificação de Phoebe com a personagem Alice, assim como a representação das pessoas de seu mundo real com personagens do mundo imaginário, revela-se como aliados no processo de superação de seus conflitos.

Análise das Personagens

Phoebe Lichten (criança) e Alice

“A menina no país das maravilhas” tem como seu título original “Phoebe in Wonderland”. A escolha do nome da protagonista da história, interpretada pela criança Elle Fanning, já nos fornece indicadores a respeito desta personagem. “Phoebe” tem origem no grego Phoibe, derivado de Phoibos, que quer dizer “brilhante”, “pura”. Na mitologia grega, era uma titã, filha de Urano e Gaia. 

Phoebe sonha interpretar Alice na peça “Alice no país das maravilhas”, que será apresentada pelos alunos de sua escola.

A criança em questão, pela convivência em um ambiente psicológico insalubre, tornou-se vulnerável, desenvolvendo sintomas de TOC - Transtorno Obsessivo Compulsivo e Síndrome de Tourette.

Phoebe identifica-se com Alice, personagem principal da história “Alice no país das maravilhas”. Alice tem como representação o ego consciente. Entendemos o ego como o centro do campo da consciência. Não é idêntico à totalidade da psique. De acordo com Jung, “o ego é o sujeito da minha consciência, enquanto o Self é o sujeito da minha totalidade [...] O ego é o único conteúdo do Self que de fato conhecemos. O ego individuado sente a si mesmo como o objeto de um sujeito desconhecido e superordenado” (1998, p. 540).

Apenas o ego tem a capacidade de se defrontar com os elementos oriundos do inconsciente. Torna-se imperiosa a necessidade de se defrontar com as dificuldades, “encarar os monstros” que surgem no caminho. Em uma tentativa de lidar com seus próprios conflitos, Phoebe passa a ter pensamentos obsessivos que culminam no desenvolvimento de comportamentos compulsivos: uma série de rituais como bater palmas, pisar em quadrados no chão, repetir frases ou sons, proferir palavras obscenas ou cuspir.

No conto, Alice também apresenta a questão da repetição. Tem sonhos e pesadelos repetitivos, sendo estes intensificados, pois a personagem não consegue compreender as mensagens advindas do inconsciente. Enquanto não há uma compreensão destes elementos e uma integração à vida consciente, os sonhos e pesadelos continuam incomodando. 

Phoebe apresenta uma identificação com esta personagem. A questão dos comportamentos de “repetição” nada mais são que tentativas de integração, de compreensão de tudo que a incomoda e a deixa com a sensação constante de “cair” ou “estar na beira de um telhado o tempo inteiro”. 

Esta necessidade de mergulhar nas questões mais profundas com o intuito de compreender-se não foi adequadamente compreendido por Phoebe, em termos conscientes, chegando a atirar-se de cima do palco enquanto vivenciava uma fantasia de sua história preferida. 

No conto, Alice relata ao cão Bayard: “Desde que caí naquele buraco de coelho, foi me falado o que fazer, e quem devo ser. Fui encolhida, esticada, arranhada, e enfiada numa chaleira. Fui acusada de ser e não ser Alice, e esse sonho é meu! Eu decidirei daqui em diante”. A escola cumpre também o papel da instituição a quem Phoebe tem a obrigação de obedecer, afogando assim, qualquer potencial criativo.

Este potencial tem a oportunidade de emergir nas aulas de teatro.

A integração entre os elementos conscientes e inconscientes ocorre por intermédio da professora de teatro de Phoebe, que se caracteriza como um elemento curador e criador. A integração permite que Phoebe reconheça suas dificuldades, mas que, embora continuem existindo, não mais aparecem como sintomas e comportamentos de repetição, e sim como libido voltada para sua vocação, que é a arte teatral. A personagem Alice (e também Phoebe) consegue aprender lições no campo da fantasia, sendo capaz de transpô-las para o campo da realidade.  

A partir do momento em que Alice toma maior consciência de si mesma e entra em contato com seus maiores medos, há um salto, um avanço em relação à compreensão de si mesma. 

Hillary (mãe de Phoebe) e a Rainha de Copas

A mãe de Phoebe, Hillary, protagonizada pela atriz Felicity Huffman, é uma escritora tentando escrever seu livro em que analisa o conto “Alice no país das maravilhas”. Apresenta dificuldade em trabalhar o conto devido à sua falta de tempo, pois se divide entre os afazeres domésticos e os cuidados com as duas filhas. Hillary reconhece suas próprias dificuldades e é capaz de perceber que a filha estaria apresentando comportamentos “diferentes”. Phoebe sente este distanciamento da mãe e, em sua fantasia, Hillary aparece como a Rainha de Copas.

No conto, a Rainha de Copas é a governante do país das maravilhas. De certa forma, a Rainha de Copas é a cerne do conflito da menina. Pode representar a Sombra de Alice. 

O termo Sombra, segundo Von Franz, é a: [...] personificação de certos aspectos inconscientes da personalidade [...]. Poderíamos portanto dizer que a Sombra é a parte obscura, a parte não vivida e reprimida da estrutura do ego [...] (1985, p.11).

A Sombra, representada pela Rainha de Copas (ou “Rainha de Corações”), grita incessantemente “Cortem-lhe a cabeça!”

A mãe de Phoebe, ao mesmo tempo em que mantém uma relação de afeto com a filha, representa para a criança alguém que não entenderia o que Phoebe sente e quais os seus conflitos mais profundos. Entrar em contato com esses aspectos pouco conhecidos pela consciência, pode aproximar Phoebe da compreensão de seu próprio mundo interno.   

Para Jung, trazer a Sombra à luz da consciência é a única forma de retirar sua potência: “uma existência psíquica só pode ser reconhecida pela presença de conteúdos capazes de serem conscientizados” (2002, p. 12).

A compreensão, em termos conscientes, da relação entre a mãe real (Hillary), a mãe imaginária (Rainha de Copas) e a filha, possibilitou o despertar de um potencial criativo e curativo importante. 

Peter Lichten (pai de Phoebe) e a Rainha de Copas

O ator Bill Pullman dá vida ao personagem Peter Lichten, pai de Phoebe. Aos olhos dos amigos, é bom marido e pai de família, no entanto, no cerne familiar, apresenta importante distanciamento afetivo e demonstra mais preocupação em terminar o índice de seu livro.

Na cena em que as filhas de Peter pedem aos pais um irmão, Peter diz a Phoebe que “não aguentariam outra igual a ela”. Ciente que havia dito algo inapropriado à filha, embora fosse esse um sentimento verdadeiro, pede desculpas, dizendo: “Estou tão envergonhado, as palavras saíram”. Phoebe sente um sofrimento profundo com esta afirmativa, pois esta veio como um “recado” do aspecto sombrio do pai. A menina também vivencia o tempo todo o conflito de dizer o que sente, sem passar pelo crivo da consciência. 

Na fantasia, o pai de Phoebe aparece como a Rainha de Copas. Interessante notar que tanto a mãe quanto o pai de Phoebe aparecem representados pela Rainha de Copas, em seus aspectos feminino e masculino. Ambos são aspectos sombrios de sua própria personalidade.

“O termo sombra refere-se à parte da personalidade que foi reprimida em benefício do ego ideal. [...] Ela é como uma combinação das cascas pessoais dos nossos complexos e, portanto, o limiar de todas as experiências transpessoais” (Whitmont, 2006, p. 144). Ainda segundo este autor, 

A sombra é a experiência arquetípica da ‘outra pessoa’ que, em sua estranheza, é sempre suspeita. [...] Em outras palavras, à medida que tenho de ser correto e bom, ele, ela ou eles se tornam os portadores de todo o mal que não consigo reconhecer em mim mesmo [...].  A sombra, portanto, consiste nos complexos, nas características pessoais que repousam em impulsos e padrões de comportamento, os quais são uma parte ‘escura’ definida da estrutura da personalidade (2006, p. 146).  

Durante a reunião com o diretor Miles, Phoebe vive os discursos da fantasia e da realidade ao mesmo tempo, sendo que prepondera a frase “Estou tão envergonhado, as palavras saíram”, dita pela Rainha de Copas, representada pelo pai de Phoebe. 

No conto, há uma desproporção entre a cabeça e o corpo da Rainha. A cabeça é muito grande. Esta inflação revela uma tendência a usar demais o pensamento, distanciando-se do sentimento.  É o que ocorre com o pai de Phoebe, que se preocupa com seu próprio trabalho e busca sempre algum tipo de justificativa para si mesmo, para afirmar que “está tudo bem”. 

Esta rainha, no entanto, tem algo de muito importante para comunicar a Alice. Representa também sua Sombra que, em um determinado momento, comunica suas questões mais profundas e os aspectos sombrios como inevitáveis: “estou tão envergonhado, as palavras saíram”.  Esta afirmativa revela a natureza humana, como passível de erros e conflitos, assim como uma semente, uma possibilidade de vivenciar e ascender a níveis mais conscientes. 

Trazer a Sombra à luz da consciência é a única forma de retirar sua potência: “uma existência psíquica só pode ser reconhecida pela presença de conteúdos capazes de serem conscientizados” (Jung, 2002, p. 12).

Phoebe começa a compreender, por meio deste diálogo com a Sombra, que seus pais são imperfeitos, que têm defeitos, que são humanos.  A este respeito, Whitmont completa: “Talvez seja naquilo que não aceitamos em nós mesmos – a nossa agressividade e vergonha, a nossa culpa e nossa dor – que descobrimos nossa humanidade” (2006, p. 27).

Dr. Miles (psiquiatra de Phoebe) e Humpty Dumpty

Humpty Dumpty é um ovo antropomórfico, filólogo e especialista em questões linguísticas, um ser extremamente orgulhoso e péssimo em matemática. Costuma representar uma sátira aos intelectuais pedantes que existiam à época de Carroll e que continuam existindo até hoje. 

Peter Gerety interpreta o papel do Dr. Miles, psiquiatra encarregado de acompanhar o caso de Phoebe. Apesar de ter realizado o diagnóstico correto – síndrome de Tourette – demonstra não ter habilidade e empatia com crianças: não existe cor em seu consultório e não utiliza nenhum recurso lúdico com Phoebe, recorrendo apenas ao diálogo. Na fantasia de Phoebe, Dr. Miles aparece como Humpty Dumpty que, apesar de estar próximo, desaparece quando Phoebe precisa de respostas.  

Quando se trabalha com análise psicológica com crianças, é necessário haver um setting, um ambiente apropriado para que possa emergir a fantasia e a criatividade. Como foi possível observar, Phoebe elegeu, inconscientemente, personagens de um conto infantil que representassem as figuras mais importantes, naquele momento específico de sua vida. É necessário permitir que a criança viva a fantasia para que possa compreendê-la em níveis mais conscientes. Se não era possível viver esta experiência na sala do psiquiatra, Phoebe pôde vivenciar a fantasia no palco, tendo como principal mediadora a professora de teatro, que permitiu que Phoebe pudesse se expressar de maneira criativa. 

Conclusão

Nem sempre a criança está inserida em uma família capaz de dar suporte afetivo adequado. Muitas vezes a criança acaba por apresentar sintomas físicos, psicológicos e comportamentais que comprometem o desenvolvimento de um psiquismo saudável, recorrendo também à fantasia como forma de lidar com as próprias dificuldades. A escola nem sempre se apresenta como ambiente propício para o processo criativo, focando apenas no aprendizado do idioma, dos números e das ciências. 

Um olhar diferenciado para as questões criativas é de extrema importância. Este olhar pode ocorrer em processo de análise com a criança ou mesmo pais e professores podem ser orientados quanto à importância de que a criança viva a fantasia, com adequado suporte, para que possa elaborá-la em níveis mais conscientes, trabalhando seus conflitos internos. 

A análise das personagens também aponta para a importância da análise psicológica com crianças e a relevância do que representa um personagem ou herói no imaginário infantil, revelando quanto os personagens do mundo imaginário podem ser grandes aliados no processo de superação de conflitos na infância. 

Referências Bibliográficas:

GONÇALVES, HB. Humpty Dumpty, o sabe tudo prosopagnóstico [acesso em 01 abr 2016]. Disponível em: https://thebloggerwocky.wordpress.com/2011/05/28/humpty-dumpty-o-sabe-tudo-prosopagnostico

JUNG, C.G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes; 2002.

JUNG, C.G.  Tipos psicológicos. Petrópolis: Vozes; 1998.

SIQUEIRA, L. Alice no país das maravilhas, uma leitura psicológica [acesso em 01 abr 2016]. Disponível em: http://psico-grafias.blogspot.com.br/2010/03/devo-de-inicio-confessar-que-historia.html 

VON FRANZ, ML. A sombra e o mal nos contos de fada. São Paulo: Paulus; 1985

WHITMONT, EC. A busca do símbolo. Conceitos básicos de Psicologia Analítica. São Paulo: Cultrix; 2006 

WIKIPEDIA. Alice no país das maravilhas [acesso em 03 abr 2016]. Disponível em https://pt.wikipedia.org/wiki/Alice_no_Pa%C3%ADs_das_Maravilhas

WORDPRESS. Mitos y Leyendas [acesso em 01 abr 2016]. Disponível em: http://mitosyleyendascr.com/mitologia-griega/febe/

 

Erika Gonçalves Cardim

Psicóloga - CRP: 06/65061  

Especialista em Psicologia Analítica (Junguiana) 

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