A Menina no Pais das Maravilhas - I

A história de Phoebe - Análise Junguiana

A Menina no mundo das Maravilhas

Resumo

A história de Phoebe, personagem do filme “A Menina no Mundo das Maravilhas”, representa o atual modelo de avaliação da saúde mental. Phoebe é uma criança extrovertida e cheia de imaginação. Ela nasceu em uma família com graves questões na sua estrutura básica, o que resulta em sérias consequências para uma criança de alta sensibilidade. Phoebe é a pessoa que consegue apreender, pelas vias da sensibilidade e intuição, o que acontece à sua volta, tecendo marcas indeléveis. A menina percebe sentimentos sombrios entre os pais, na verdade, capta os mais danosos de qualquer pessoa, sem fazer distinção se adulto ou criança. E tais sentimentos são: arrogância, inveja, desesperança e preconceito. Ela é também capaz de ver a própria impotência diante do gigantismo dos sentimentos que estão à sua volta. Assim, o ego não consegue permanecer imune, e a doença se estabelece.

Palavras-chaves

Tipologia, inconsciente, sombra, ego.

Introdução

A Psicologia Junguiana oferece grandes recursos para a análise da personalidade em formação, proporcionando instrumental de prevenção às questões de alta periculosidade à saúde mental do adulto. E, modernamente, a prevenção é vista como o recurso por excelência. Analisar crianças, com base nesse foco, poderá vir a ser a grande inovação no sentido de cuidados essenciais às futuras gerações.

Jung estuda e promove a análise dos indivíduos, respeitando o tipo psicológico e as disposições deles. Observa, ainda, que há, basicamente, duas formas de disposição dos indivíduos em relação ao objeto:

1) Aqueles que focam a sua atenção no mundo externo de fatos e pessoas – são os extrovertidos;

2) Aqueles que focam sua atenção no mundo interno de representações e impressões psíquicas – são os introvertidos.

A Introversão e a Extroversão representam a tendência natural do indivíduo para se relacionar com o mundo. Não é uma preferência ou uma escolha consciente, mas o resultado da convivência e das relações desde os primeiros dias de vida, ainda na fase pré-egoica.

A introversão e a extroversão dizem respeito à direção do movimento da libido, que Jung entende como sendo a energia psíquica. São movimentos naturais e antagônicos entre si. Entende-se a extroversão como o enfoque dado ao objeto e a introversão como o enfoque dado ao sujeito. Assim, em relação ao tipo introvertido e extrovertido, Jung (1971b: 47) ilustra muito adequadamente que “um encarrega-se da reflexão (o introvertido) e o outro, da iniciativa e da ação prática (o extrovertido)”.                                        

Na extroversão, a energia psíquica flui para os objetos, fatos e pessoas. Observa-se a impulsividade, comunicabilidade, sociabilidade e facilidade de expressão oral. O indivíduo extrovertido vai confiante de encontro ao objeto e esse aspecto favorece sua adaptação às condições externas, o que não é tão fácil para o indivíduo introvertido. Já na Introversão, o indivíduo direciona a atenção para o seu mundo interno de impressões, emoções, fantasias, criações mentais e pensamentos. Dessa forma, observa-se uma ação voltada para o interior, o pensar antes de agir, a postura reservada, o saber esperar por sinais vindos do mundo interior antes de tomar atitudes, o retraimento social, o controle das emoções, da discrição, e há facilidade de expressão no campo da escrita e das artes. O introvertido ocupa-se dos seus processos internos suscitados pelos fatos externos, diferenciando-se do extrovertido por sua orientação por fatores subjetivos e não pelo aspecto objetivamente dado.

Jung (1971b: 48) diz que ambas as atitudes existem dentro de um mesmo indivíduo, todavia, só uma delas foi desenvolvida como função de adaptação; logo, pode-se supor que a extroversão cochila no fundo do introvertido, como uma larva, e vice-versa. Dentro de uma mesma atitude, introvertida ou extrovertida, há diferenças importantes que estão relacionados às funções psicológicas. Jung observa que há quatro funções: a intuição, a sensação, o sentimento e o pensamento. E juntamente com as duas atitudes, teremos os Tipos Psicológicos.

Sob o conceito de Sensação, pretendo abranger todas as percepções através dos órgãos sensoriais; o Pensamento é a função do conhecimento intelectual e da formação lógica de conclusões; por Sentimento entendo uma função que avalia as coisas subjetivamente e por Intuição entendo a percepção por vias inconscientes. A Sensação constata o que realmente está presente. O Pensamento nos permite conhecer o que significa este presente; o Sentimento, qual o seu valor; a Intuição, finalmente, aponta as possibilidades do “de onde” e do “para onde” que estão contidas neste presente... As quatro funções são algo como os quatro pontos cardeais. Tão arbitrárias e tão indispensáveis quanto estes (JUNG, 1971a: 497).

Elvina Lessa (2002) publica que a Sensação e a Intuição são funções irracionais, uma vez que a situação é apreendida diretamente, sem a mediação de um julgamento ou avaliação; elas são excludentes entre si. A função Sensação é a função dos sentidos, a função do real, a função que traz as informações (percepções) do mundo por meio dos órgãos dos sentidos. Pessoas do tipo Sensação acreditam nos fatos, têm facilidade para lembrar-se deles e dão atenção ao presente. Essas pessoas focam o real e o concreto; são voltadas para o “aqui-agora” e costumam ser práticas e realistas. Preocupam-se mais em manter as coisas funcionando do que criar novos caminhos. Já o seu oposto, a função Intuição, detém a percepção, a qual se dá por meio do inconsciente, e a apreensão do ambiente geralmente acontece por meio de pressentimentos, palpites ou inspirações. Os sonhos premonitórios e as comunicações telepáticas, via o inconsciente, são algumas das propriedades da intuição, a qual busca os significados, as relações e possibilidades futuras da informação recebida. Pessoas do tipo intuição tendem a ver o todo e não as partes, e, por isso, costumam apresentar dificuldades na percepção de detalhes.

As outras duas funções, Sentimento e Pensamento, guardam as relações opostas entre si – são as funções de julgamento.

A função Pensamento estabelece a conexão lógica e conceitual entre os fatos percebidos. As pessoas que utilizam o Pensamento fazem uma análise lógica e racional dos fatos: julgam, classificam e discriminam uma coisa da outra sem maior interesse pelo seu valor afetivo. Procuram se orientar por leis gerais aplicáveis às situações, sem levar em conta a interferência de valores pessoais. Naturalmente voltadas para a razão, procuram ser imparciais em seus julgamentos (ELVINA LESSA, 2002).

Já a função Sentimento se manifesta de forma oposta. Os fatos são analisados e as decisões são tomadas em função da harmonia do ambiente, dos sentimentos provocados e/ou apreendidos de si mesmo e do outro; os valores pessoais são valorizados, independentemente, se a lógica vigente (em particular, as dos tipos pensamentos) seja a maioria. A lógica do tipo sentimento é de outro referencial. E Zacharias (1994: 100) sintetiza:

A Sensação corresponde à totalidade das percepções de fatos externos que nos chegam através dos sentidos; a Sensação nos dirá que alguma coisa é (existe). O Pensamento dá o nome a esta coisa e agrega-lhe um conceito. O Sentimento nos informa o valor das coisas, nos diz se elas nos agradam ou não, constituindo uma avaliação e não uma emoção.

A quarta e última função está ligada ao conceito do tempo, que equivale a um passado e a um futuro. Conhecemos o passado, mas, o futuro dependerá de um “palpite” que é a Intuição.  

Complementando Zacharias, a Intuição é um conhecimento a priori e não um palpite ao acaso. Esse conhecimento segue também outra lógica, que Jung chama de acausal, ou seja, não é relativa às leis cartesianas das curvas de espaço vs tempo ou mesmo dose vs efeito. São as percepções inesperadas, muitas vezes, premonitórias e, outras vezes, até mesmo, espetaculares.

Isso posto, pode-se facilmente perceber que Phoebe seria uma pessoa Intuição Introvertida, sendo o sentimento, a segunda função mais desenvolvida, e a função  sensação como a inconsciente. Disso decorre que com uma função em desequilíbrio, os mecanismos de defesa do ego (ANNA FREUD, 1946) estarão prejudicados e a exposição aos conteúdos do inconsciente trará sérios prejuízos a toda psique.

Análise Psicológica do Filme 

Desde as primeiras horas do contato de uma criança com o ambiente, em particular, com a mãe e, depois, com o pai e a mãe, ela receberá influências e irá apreendê-las. A forma de apreensão dos conteúdos será pela via do inconsciente, uma vez que, segundo a Psicologia Junguiana, o bebê nasce como puro inconsciente e constituirá o consciente a partir daí, de início, pelo inconsciente da mãe (NEUMANN, 1991) e, posteriormente, por meio das relações com os outros adultos significativos (os cuidadores) e com todo ambiente onde o bebê viver.

A criança tem o aparato neuronal e o inconsciente disponíveis para a apreensão e aprendizado, advindos da compreensão de conteúdos, oriundos das inter-relações. A psique exposta às influenciações reagirá de forma inconsciente a cada uma delas, com consequente formação do ego, que será bem estruturado ou não, dependendo do meio e das relações, saudáveis ou não, que envolverão essa criança.

Phoebe é parte de uma família, cujos pais estão em franco desajuste. Ela e a irmã mais nova estão desamparadas devido à forma como os pais lidam com o casamento.

Mãe: mulher bastante sensível, amorosa, mas, também capaz de sentimentos de inveja e ciúme. A agressividade é contida e disfarçada pela educação e traquejo social, o que a faz extremamente contida no gestual, no discurso e, principalmente, nas relações, seja no casamento, nas amizades e, em especial, com as filhas. A inveja é dirigida ao marido pelo sucesso dele como escritor, pelas condições especiais de trabalho que ele tem e que não são possíveis a ela pelo sucesso obtido por ele.

Sobre a Inveja: a inveja vem de uma palavra em Latim, que significa ‘eu vejo’. É sentimento altamente negativo e destruidor, demonstrado por alguém com alto grau de incompetência, devido a complexos inconscientes e que prefere destruir a obra do invejado, ao invés de buscar aprimoramento e resolução de seus complexos. A inveja é, constantemente, acompanhada de depressão, sentimento de desvalia, revolta, desejo profundo do fracasso do outro e incômodo pela felicidade alheia. Dessa forma, a palavra do Latim, invídia, retrata muito bem o significado do sentimento: o invejoso não consegue SE VER, mas, apenas, vê o que é do outro, esquecendo-se que o ser humano é único e incomparável, não sendo possível, jamais, reproduzir o que o outro faz. A inveja que a mãe sente do marido tem como base a própria incapacidade dela de organização interna para lidar com a casa, as filhas, sobretudo, com uma criança tão bem dotada como Phoebe e, ainda, lidar com a produção da tese.

Pai: o pai de Phoebe é um indivíduo narcisista e, como tal, altamente egoísta. 

Ausente do convívio emocional com a família, mantém a dissimulação própria desse tipo de personalidade. É muito bem visto pelos amigos, muito considerado pelos colegas, admirado por todos e, principalmente, por si próprio. Mantém um bom status para a família, garantindo a persona de marido ideal e bom pai de família. É sempre simpático, no entanto, a sensibilidade das crianças não deixa passar que o pai não as ama de verdade. Desenvolvem, assim, comportamentos bizarros, no sentido de angariar atenção e socorro.

Narcisismo: o narcisismo é considerado um transtorno da personalidade, caracterizado pela presença de uma eterna e arquetípica ferida, a qual aponta para uma eterna perfeição do corpo e das realizações materiais, sem a atenção necessária à imperfeição, que decorre, simultaneamente, da psique. O narcisismo é decorrente de um apego, altamente patológico ao mundo da mãe, extremamente cuidadosa, elogiosa e sedutora. É aquela que impede o desenvolvimento psicológico do seu filho ou filha, mantendo-o(a) regredido(a) e necessitado(a) dela.

Segundo a Psicologia Analítica, há três tipos de narcisismo:

1) a pessoa acredita ser o próprio deus, identificando-se loucamente com figuras poderosas e divindades;

2) a pessoa se utiliza de uma persona eficaz, com a qual faz identificações e com ela se  mostra para a sociedade. O indivíduo crê ser o melhor que todos, o que lhe promove a perigosíssima inflação de ego;

3) O narcisismo é compactuado com a Sombra. O portador desse tipo sofre das projeções da mãe e/ou de outras figuras significativas sobre ele. Tais figuras fizeram-no crer ser ele o maior e o melhor.. A regressão ao mundo materno é tal que o indivíduo não consegue aprimorar o seu mundo interno pelos exercícios de acerto e erro. No entanto, no seu íntimo, ele não acredita nessas projeções e desacredita de si mesmo, fugindo constantemente do convívio com os outros, além de buscar o isolamento protetor e regressivo.

Pela relação simbiótica com a mãe, a libido criativa se afasta do mundo externo, resultando em introversão patológica, que impossibilita o investimento no outro. Assim sendo, o mesmo tempo que fragiliza o ego, fortalece a persona e a Sombra.

O enredo central do mito de Narciso é a diferenciação entre o eu e o outro – um pré-requisito essencial para o processo de individuação. O pai de Phoebe é claramente narcisista, portanto, arrogante e egoísta. Tem uma relação competitiva com a esposa porque sabe do valor intrínseco dela. Por isso, deixa que ela fique sobrecarregada, facilitando na competição o seu sucesso como escritor.

Dessa maneira, todas essas questões estão convivendo no ambiente psicológico da família. Phoebe e a irmã apreendem todas as nuances e, cada qual, a seu modo, reage defendendo-se do ambiente altamente insalubre. A irmã detém o tipo psicológico extrovertido/pensamento. Ela elabora melhor as defesas, se revela com a irreverência e denuncia o que vê e sente de forma muito clara e explícita. Já Phoebe é introvertida e tem a intuição como tipo psicológico principal, portanto, com a sensação no inconsciente; por conseguinte, os aspectos inconscientes não controlados irão se manifestar sempre que ela estiver em conflito e em sofrimento. Devido às condições das relações familiares, Phoebe não conseguiu desenvolver boas condições de defesa do ego, o que a torna extremamente vulnerável. Assim sendo, sempre que confrontada e encurralada, reage, inconscientemente, com cusparadas e xingamentos – comportamentos antissociais típicos da patologia que ela acaba por desenvolver. Há sintomas de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) e de Síndrome de Tourette.

De acordo com o DSM-IV, tal síndrome é caracterizada por tiques (um movimento ou vocalização súbita, rápida, recorrente, não rítmica e estereotipada) que ocorrem, frequentemente, da mesma maneira e que podem se manifestar em qualquer parte ou conjunto de partes do corpo. Aparecem também na forma de vocalizações. Raramente uma pessoa que desenvolveu essa síndrome consegue controlar um mínimo de seus tiques e isso pode permanecer por um longo período de tempo  (HOUNIE; PETRIBÚ, 1999).

A criança tem o seu sofrimento nominado, mas, na base de tudo está a falta de alicerce amoroso, que deveria ser estabelecido pelas personalidades, minimamente, equilibradas dos pais.

A professora de teatro é aquela que acontece na vida de Phoebe para salvá-la da loucura e do desequilíbrio final, incluindo a possibilidade de suicídio que a ronda como uma forma de libertação. É preciso permitir a liberdade de Phoebe, para que a sua inteligência sensível e criativa se utilize da energia para a sensibilidade, criatividade e liberdade, e não permaneça presa em regras como quer o diretor da escola. Apenas dessa forma, ela poderá encaminhar toda a sua libido represada para a sua verdadeira vocação e não mais para uma enxurrada de sintomas bizarros, incapazes de qualquer solução saudável.

O final do filme é redentor, pois, ao permanecer sozinha, na ausência da professora, Phoebe a internaliza. A professora se torna, então, o seu daimon curador e criador. Assim, a melhor defesa psicológica é possível e Phoebe se liberta.

Conclusão

Objetivou-se direcionar a análise do filme para os aspectos da observação e valorização das partes saudáveis do mundo interno de uma pessoa, como o verdadeiro instrumento de melhora, senão de cura.

A observação do funcionamento de uma pessoa como sendo única e livre dos padrões estatísticos poderia ser o facilitador para a solução de muitos traumas que acontecem na infância e perduram por toda a vida.

Finalmente, a análise dos padrões neuróticos e, até, psicóticos, de uma família é ponto fundamental para o bom andamento da vida de todos os seus membros. A relação amorosa e equilibrada dos pais é o alicerce necessário e suficiente para que a vida de seus membros seja plena. Além disso, o filme trata da questão grave que são as regras estabelecidas por educadores em escolas, os quais seriam altamente beneficiados em sua missão de educar se detivessem o conhecimento sobre o funcionamento da psique, em particular, respeitando as diferentes tipologias, ao invés de padronizar estatisticamente.

Da análise e reflexão sobre o filme, surge, então, a proposta de levar a pais e escolas palestras sobre a tipologia junguiana, sobre o inconsciente e as defesas que o ego precisa estabelecer para uma vida equilibrada, livre de neuroses e, principalmente, das psicoses.

Referências bibliográficas

FREUD, A. O ego e os mecanismos de defesa. Rio de Janeiro: BUP, 1946

HONIE, A; PETRIBÚ, K. Síndrome de Tourette - revisão bibliográfica e relato de casos. (1999) - Rev Bras Psiquiatr.

JUNG, C.G. Tipos Psicológicos. Tradução Álvaro Cabral. Rio de Janeiro, Editora Vozes,1971

LESSA, E. A Teoria dos Tipos Psicológicos. Rio de Janeiro, Instituto Junguiano do Rio de Janeiro, 2002. Disponível: http://www.jung-rj.com.br/artigos/tipos_psicologicos.htm. Acesso em 01 Abr.2016.

NEUMANN, E. A Criança. São Paulo: Cultrix Editora, 1991 

ZACHARIAS, J.J.M. Tipos Psicológicos Junguianos e Escolha Profissional - uma investigação com policiais militares da cidade de São Paulo. Tese de doutorado, Instituto de Psicologia - USP, São Paulo,1994.

 

 

Idalina A de Souza

Psicóloga Clínica – CRP: 6/65192

Analista Junguiana, membro da Associação Junguiana do Brasil – AJBI

Membro da International Association of Analytical Psychology – IAAP/Zurique

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