O Escudo do Sul

Livro: As Cartas do Caminho Sagrado – Jamie Sams

Arteterapia

Em nossa vida cotidiana, o ser humano adulto muitas vezes se esquece de permitir que a maravilha e a beleza da vida penetrem no espaço do coração e acaba abrindo caminho para que o sarcasmo penetre por esta brecha. É durante estes momentos que o ego começa a permitir a perda de auto-estima e que se destroem as melhores intenções, impedindo que se use a criatividade de forma positiva. Medos e temores podem destruir a perfeita sincronicidade de nosso ritmo interno e nos desviar da nossa União com o Todo. Foi o “Grande Mistério” quem colocou todas as pessoas em seus próprios Espaços Sagrados, munidas de seus dons, talentos e habilidades. O Ensinamento do Escudo do Sul me chegou em uma fase em que eu havia me tornado uma pessoa séria e sisuda demais. Eu estava sentada em uma colina ao lado de um desfiladeiro bem acima dos ruídos da cidade, olhando para o sul e tentando penetrar no silêncio do meu coração. Era inicio da primavera e o lugar em que eu estava sentada era perfeito para que eu pudesse ver todo o desfiladeiro. A intensidade do orvalho da manhã sobre a relva penetrava pelos meus sentidos com seu rico perfume. Fechei os olhos e rejubilei-me pela glória de estar viva.

O som da voz do avô Taquitz encheu minha mente. Ele havia saído da Estrada Azul do Espírito para conseguir tocar meu coração e me mostrou uma garotinha montada nas costas de um Coiote que subia a trilha do despenhadeiro e estava às gargalhadas no Coiote que lhe servia de montaria. O Avô Taquitz mandou que eu prestasse atenção ao jeito gentil como ela se relacionava com o animal. Ele disse: “Ela não tem medo e o Coiote também não deseja enganá-la, nem sair em disparada para que ela caia”.

O Coiote é conhecido como o Embusteiro e nos ensina a beleza que existe em nossa confiança e na nossa inocência infantil, até que nos tornamos sérios demais. Aí ele arma um ardil para nos enganar, derrubando o excesso de seriedade que serve para mascarar nossos temores e ansiedades. Toda vez que nos esquecemos de ser crianças e de encarar a vida de forma um pouco mais alegra e tranqüila, o Coiote nos importuna para que deixemos de lado nossa dor, que nos impede de ver e sentir as alegrias e as bênçãos da vida.

A menininha dirigiu-se até a grande pedra onde eu estava sentada e entregou-me uma cesta contendo três objetos. A voz do Avô Taquitz me instruiu a olhar para os presentes na cesta, símbolos dos três caminhos para se compreender o Ensinamento do Escudo do Sul. “Toque-os e fique atenta aos seus verdadeiros significados”. O primeiro presente  era uma boneca. _ O primeiro caminho para compreender a sabedoria da criança é o espírito de jovialidade. Se você puder rir das coisas que despem você de seu orgulho egocêntrico, reencontrará a inocência e a humildade. É a partir desse lugar de novos começos, que todas as coisas tornam-se claras e repletas de verdade. A seriedade do adulto não terá como destruir seus relacionamentos com os outros se você souber honrar a sabedoria que a criança possui, ao equilibrar sempre o lado sagrado com uma pitada de irreverência.

O segundo presente era uma reluzente bola vermelha. No momento em que a toquei, ela pulou para longe da minha mão, e desceu, quicando, pela parede do desfiladeiro. A garotinha e o Coiote correram atrás, gargalhando, enquanto tentavam alcançá-la. Assumir a alegria de poder usar o seu corpo, desenvolvendo a habilidade e a graça que chegam através das brincadeiras, permite

 

que o corpo se libere das tensões do mundo adulto. Desta forma, será mais fácil confiar em você mesmo e permanecer em equilíbrio. A capacidade de reconhecer tudo o que seu corpo pode fazer, de assumir as suas necessidades e permitir que se expresse livremente constitui o segundo caminho para recuperar a fé em si mesmo.  Então perguntei ao avô: Mas e a confiança nos outros, na própria vida e no Plano do Grande Mistério? O velho Xamã sorriu, dizendo: Cada ser vivo manifesta exatamente aquilo que deve ser naquele determinado momento. Você ainda se esquece de observar qual é a essência verdadeira de cada indivíduo, e projeta no outro os seus próprios desejos.  Saber equilibrar seu próprio corpo lhe fornece a chave para poder observar a verdade em todas as coisas. Se você utiliza o corpo somente para trabalhar, ele acaba se cansando e ficando bloqueado. Se você souber harmonizar seu corpo através das brincadeiras e atividades físicas, da dança, do prazer, ele poderá se libertar da imagem de ser um escravo do trabalho e descobrirá que não há necessidade de guardar rancores. Quando seu corpo não guarda ressentimentos, os seus pensamentos tornam-se mais claros. Você encontra alívio para a tensão que a impede de conhecer a você mesma e aos outros, e de admirar a beleza dentro do plano do Grande Mistério.

 A seguir, peguei o terceiro presente, tratava-se de um espelho. A garotinha e o Coiote vieram galopando de volta para me devolver a bola vermelha e tentaram acertá-la na cesta. Porém a bola escapuliu e quebrou o espelho. Fiquei aterrorizada quando vi a imagem do meu rosto se estilhaçar na minha frente. De repente encontrei-me olhando no fundo dos olhos negros do Avô Taquitz que riu e disse: _ Não se preocupe. Isso faz parte da lição. Quando você puder destruir a ilusão da imagem que criou para mostrar aos outros e voltar a ser você mesma, verá restaurada sua inocência.

Voltando a olhar o espelho, percebi milhares de pequenos reflexos do meu próprio rosto. Cada pedaço do espelho partido refletia uma imagem inteira. Comecei a perceber que existem muitas facetas – ou lados de nós mesmos – que estamos sempre exibindo para os outros. Isso quase sempre correspondia aquilo que queríamos que eles vissem. Cada um dos modelos de rosto nos poderia trazer aprovação e aceitação. Eu percebi que a forma de recuperar a minha verdadeira imagem estava simbolizada na figura da menina. Esta criança interior representava a essência do inicio da minha vida e não carregava nenhum dos temores da minha vida adulta. Ela passaria a ser minha professora, ensinando-me a quebrar os espelhos da autoimportância e a rir das expectativas e das projeções que os outros colocassem em meu caminho, até que eu conseguisse voltar a ser eu mesma.

Vovô Taquitz sorriu, dizendo:  - Sim, você já compreendeu que o terceiro caminho é conseguir ser quem você realmente é, compreender a beleza da sua essência original. Você não precisa afastar-se da sua inocência e beleza só para agradar os outros. Eles poderão refletir-se nesta sua atitude, para que deixem cair as máscaras de seus temores e passem a enxergar que também possuem esta beleza toda dentro de si. Assumindo sua criança interior, você poderá recuperar a fé na vida e recapturar a sensação do Maravilhoso que existe no fato de estar vivo. Agradeci aos meus Mestres daquele momento. Tratava-se de um bom dia para se estar viva, de um bom dia para rir e um bom dia para recomeçar.                 

 

                       Livro: As Cartas do Caminho Sagrado – Jamie Sams                                 

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