A DOENÇA COMO SÍMBOLO DE TRANSFORMAÇÃO

Psicossomática Analítica

Psicossomática

Resumo

Apresenta-se a Psicossomática Analítica, uma abordagem de saúde e doença como parte de um mesmo processo. Introduz-se a discussão da doença como algo mais do que um acidente desagradável. Encara-se o ser humano como um todo, afirmando não existir separação entre corpo e mente; a psique está no corpo como o corpo está na psique. Sendo assim, encara-se a doença como uma representação da energia psíquica que não encontrou outra forma de se expressar, porque a pessoa doente não descobriu outra maneira de simbolizar seu desequilíbrio. Considera o símbolo como máquina transformadora da energia psíquica buscando encontrar o núcleo do complexo onde repousa um arquétipo, que poderá dar luz tanto ao significado (o que é) da doença na vida daquele indivíduo, quanto ao sentido (qual a direção) a doença tomará.  Conclui-se que a direção conferida à vida pela doença é dada na medida do significado encontrado e que é para isto que serve a doença: para descobrir sobre o Si-mesmo (servindo ao Processo de Individuação), e que tudo depende do quanto se suporta desta descoberta.

Palavras-chave: Psicossomática; Psicologia Analítica; Doença; Símbolo; Individuação. 

DISEASE AS SYMBOL OF TRANSFORMATION

Abstract

Analytical Psychosomatics is introduced as an approach to health and disease as part of the same process. The discussion of health as something more than an unpleasant accident is brought forward. The human being is faced as a whole, with the assurance that there is no separation between body and mind; the psyche is in the body as the body in the psyche. Therefore, disease is faced as a representation of the psychic energy which did not find any other way to express itself, because the diseased person did not find out another way to symbolize his or her unbalance. The symbol is considered as a machine that transforms psychic energy, trying to find the nucleus of the complex where an archetype lies, which could enlighten both the meaning of the disease (what it is) in the life of that individual, and the direction (which way it will go through) it will take. It is concluded that the direction rendered to life by disease is given in the measure of the encountered meaning and that is what disease serves for: discovering oneself  (as a part of the process of individuation) and that all depends on how much one can take of such discovery.

Key-Words: Psychosomatics; Analytical Psychology; Disease; Symbol; Individuation.

INTRODUÇÃO

Este trabalho diz respeito a uma abordagem da Psicossomática iniciada no mestrado da PUC Campinas, que originou posteriormente tema de doutorado. Tem o objetivo de introduzir e dar base à discussão de que a doença é algo mais do que um acidente desagradável e indesejável em nossas vidas. Ao abordarmos o ser humano como um todo, podemos afirmar que não existe separação entre corpo e mente; a psique está no corpo como o corpo está na psique. Sendo assim, encaramos a doença como uma representação da energia psíquica que não encontrou outra forma de se expressar, porque a pessoa doente não descobriu outra maneira de simbolizar seu desequilíbrio (Silveira, 1997).

Acrescentamos que esta deveria ser uma abordagem "em quatro dimensões" (somato-psico-sócio-cultural) e inerente aos conceitos da Medicina, conforme foi desde os seus primórdios e que deveria prevalecer até os dias de hoje. A Psicossomática hoje não necessita ser mais uma especialização, mas sim, um conceito internalizado, sobretudo por quem não concebe o homem em pedaços, ou seja, por quem trata do doente e não da doença.

Embora deseje a saúde, o indivíduo adoece exatamente nos momentos em que não poderia adoecer, para se castigar, usufruir de algum benefício afetivo, lutar por algum desejo, ou ainda, enfrentar alguma dificuldade.  Isso mostra que não se pode contar com o ego como senhor de si. O ego é submisso ao domínio dos complexos, por assim dizer, é o terreno da crise e do mal-estar, onde se  confrontam os desejos conscientes e inconscientes.

Jung (1971) sempre chamou a atenção sobre os perigos da unilateralidade da psique, os perigos de nos prendermos excessivamente à consciência e sermos surpreendidos pelo inconsciente. Em sua função simbólica, a doença é parte integrante de uma cultura da mesma maneira que qualquer outra produção de ordem artística, ou um arquétipo. 

Considerando que a proposta junguiana é exatamente a de se colocar diante do símbolo e deixar-se transformar por ele, isso é, na medida em que o concebemos como máquina transformadora de energia. Ele é um veículo que conduz a transformação ou um meio de transformação. Dessa forma, o símbolo apenas colabora com a análise, não a impossibilita jamais.

Só aceitamos como símbolo aquilo que se faz presente, desde o inconsciente para a consciência, como um facilitador da consciência e da integração do conteúdo inconsciente. É necessário significar o símbolo e colocá-lo à disposição da consciência, decifrar sua mensagem e deixá-lo agir, transformando a própria estrutura da psique. Mas, a proposta junguiana exige que isto seja feito da forma menos racional possível, pois o símbolo só é símbolo quando promove uma comunicação consciente-inconsciente, ou quando faz sentido atualizando algum material do inconsciente, tornando-o disponível à consciência. Entretanto, o que possibilita a conscientização, melhor dizendo, o que aumenta a comunicação consciente-inconsciente?

É o fato de estarmos, no processo de individuação, sempre retornando ao início, retomando conteúdos esquecidos ou reprimidos. Como se descrevêssemos uma espiral atingindo sempre um ponto "à frente" no desenvolvimento (diferenciação) para cada novo conteúdo atualizado, é como um retorno ao início para dar um passo à frente. Sabemos que, por meio do Uroboros, símbolo do início e do fim em si mesmo (símbolo da indiferenciação) presente no princípio da estruturação da libido, estaremos representando o constante retorno ao inicio, sempre que atingimos o último ciclo do processo: o ciclo cósmico (Neumann, 1968).

Além disso, o Self é considerado o arquétipo central, organizador da psique para onde tenderá o ego, sempre. Desta forma, afirmamos que a estruturação da psique se dá no eixo Ego-Self, e que o reconhecimento de um complexo inconsciente leva à integração. Conseqüentemente, isto possibilita a transformação, o que pode levar à solução de problemas, ou ao encaminhamento normal da energia.

Há muita resistência, por parte da Medicina e da Ciência em geral (uma das exceções é a escola junguiana que considera o inconsciente como fonte de todas as transformações), em aceitar que podemos adoecer porque precisamos ou queremos algo num certo sentido. Que existe uma consciência paralela muito mais poderosa do que nós mesmos e que tudo que nos acontece tem um sentido nem sempre conhecido. Isto parece difícil de aceitar, para a maioria dos cientistas, pois significa perder, por assim dizer, sua pretensa autonomia.

Na visão de Debray (1995), o inconsciente como produtor de certos sintomas chama a atenção contra alguns narcisismos. Visto que provoca o sentimento de insuficiência do saber ou prática naqueles que permanecem presos aos domínios tradicionais, bem como nos que se encontram em momentos cuja mudança de hábitos e formas de pensar são tarefa difícil. Mais ainda traz novo golpe aos nossos aspectos megalomaníacos, acrescentando a carga de um questionamento pessoal ao determinismo, por si mesmo pesado, em nossas vidas. "É mais ameno invocar elementos patogênicos externos do que analisar fatores íntimos de nossos episódios depressivos". (Debray, 1995, p.XII)

Torna-se difícil, pensando assim, aceitar nossa hipótese de que a doença serve para a transformação e integração dos conteúdos ídeo-afetivos inconscientes. Tendemos a uma abordagem da doença que se propõe a ver saúde e doença como manifestações a favor da vida ou da morte, dependendo do quanto de verdade se suporta sobre si mesmo. Em suma, a doença é um símbolo que, em seu dinamismo, favorece a saúde. 

A Função dos Complexos

Encontrar o núcleo do complexo onde repousa, certamente, um arquétipo, poderá dar luz tanto ao significado (o que é) que a doença tem na vida daquele indivíduo, quanto ao sentido (qual a direção) que a doença tomará na sua vida. Isso nos proporcionará saber, portanto, o lugar que a doença ocupa e qual a direção a ser dada para a vida a partir desta descoberta.

Sabemos que um complexo tem autonomia para mudar o rumo das coisas ou a direção de toda uma vida e que o ciclo de uma vida pode ser interrompido por idéias de forte tonalidade afetiva, isto é, firmemente associadas a emoções. Os chamados afetos realmente nos atingem (ou ‘influenciam’), como numa situação de perigo ou ameaça, ou mesmo quando colocam de lado qualquer boa intenção ou projeto consciente de vida. Somos tomados por nossos afetos ou por nossos complexos autônomos, não só no caso das psicoses e das neuroses, mas também nos casos das doenças orgânicas. Seja qual for o caso, trata-se de uma completa, mesmo que temporária, inconsciência, provocada pela autonomia do complexo, sempre inconsciente.

Jung (1971) diz que numa situação de perigo ou ameaça, o perigo concreto pode passar; o complexo logo perde a tonalidade afetiva de atenção, as sensações logo se tornam aparentemente normais, mas o complexo continua vibrando por um certo tempo em seus componentes corporais, e conseqüentemente, nos psíquicos também. Por exemplo, quando "os joelhos continuam a tremer'', o coração ainda fica disparado, as mãos pingam de suor, o rosto permanece vermelho ou pálido, enfim, tudo ocorre como se a pessoa não se refizesse do medo, levando-nos a crer que algumas doenças orgânicas estão relacionadas a esta perseverança de que trata Jung: “Juntamente com a forte carga emocional, essa perseveração do afeto constitui uma razão para o aumento proporcional da riqueza das associações relacionadas ao afeto” (Jung, 1971, p. 34-35). 

Dessa forma, sempre que somos intensamente mobilizados por algum acontecimento, sofremos uma afetação em três níveis, como se fossem um só, ideias/emoções/corpo, nos quais as associações são simultâneas e a vibração continua por tempo indeterminado. Por isso, nunca sabermos ao certo o quanto somos atingidos, mas sentimos, inclusive no corpo, que somos. O que não sabemos, na verdade, é qual aspecto do acontecimento foi atraído por algum elemento do complexo; provavelmente será uma ideia semelhante, presa em alguma associação inconsciente, visto que o complexo é formado de ideias semelhantes que se atraem e se aglutinam.

Um complexo pode atuar sobre a psique sem ser reconhecido, continuando a atuar até se descarregar e, até, que a energia psíquica, nele armazenada, transfira-se, isto é, seja emocionalmente assimilada. Uma vez conscientizado, o complexo tem mais chance de ser entendido e assimilado, já que, mantendo-se inconsciente, pode prejudicar a unidade da psique. Por outro lado, um complexo não resolvido pode atuar sobre a psique sem ser reconhecido. Esse, porém, quando assimilado, transforma-se em energia renovada. Via de regra, o processo de tornar consciente um complexo normalmente encontra resistência. Assim, o entendimento apenas intelectual não tem força sobre o complexo, a transformação se dá somente por meio da emoção. Portanto, conscientizando-nos do complexo que possui a doença, estaremos liberando a energia, antes presa, que servirá para transformação, reestruturando a psique.

McNeely (1987, p. 22) reflete sobre essas noções relacionadas aos complexos e suas manifestações no corpo: "todos os complexos podem apresentar sintomas somáticos ou psíquicos, e até uma combinação de ambos. É possível detectar a presença de um complexo por posturas características do corpo, assim como por reações emocionais crônicas, sintomas somáticos, doenças crônicas ou cíclicas e outras manifestações fisiológicas de tensão. O Ego pode assumir uma das seguintes atitudes com relação aos complexos: inconsciência total de sua existência; identificação; projeção; enfrentamento".

A conscientização requer o enfrentamento, pois é a única atitude que possibilita a solução, embora esteja sempre acompanhado de sofrimento. Acontece que o complexo permanece inconsciente em conseqüência do conflito com os valores do ego. Não querendo sofrer, evitamos o enfrentamento. A doença psicossomática pode ser uma forma de adiar o enfrentamento, transferindo para o corpo a vivência do conflito. Por outro lado, ao conhecermos o conflito, poderemos encontrar o complexo e desmanchá-lo, ampliar a consciência e liberar a energia. De outra forma surgirão os sintomas físicos, psicológicos, ou ambos. Jung (1971) alerta para o fato de que isso é facilmente explicável: por um lado, os complexos com muita força afetiva compreendem em si inúmeras inervações corporais e, por outro, os afetos fortes constelam um grande número de associações, graças ao estímulo poderoso e persistente que provocam no corpo. Ainda mais que normalmente os afetos podem durar por tempo indeterminado provocando sintomas ou distúrbios gástricos e cardíacos, insônia, tremedeiras, enxaquecas, por exemplo.

Provavelmente, o que chamamos de sensibilidade do complexo faz com que prevaleça o estado de vibração e continue determinando a doença, a qual servirá, na verdade, ao propósito inconsciente de fuga ou de defesa do indivíduo. As associações vão desaparecendo aos poucos da consciência e tomando um lugar nas malhas intrínsecas dos complexos, ou seja, nas teias das ideias e emoções aglomeradas, agrupadas ou amontoadas, permanecendo inconscientes. Todo este processo faz parte daquilo que Jung chama de efeito crônico dos complexos.

Ademais, Jung (1971) diz que estímulos diversos podem sempre atualizar um complexo. Por exemplo, em situações de estresse, observamos que os complexos são facilmente atualizados: quando um estímulo estressor (um susto) aciona uma associação inconsciente da malha do complexo que é atualizado e a pessoa tem uma descarga tanto orgânica quanto emocional, guiada pelo complexo. Afirma-se isto porque a maioria dos complexos encontra-se em estado de repressão e pode se revelar a qualquer momento, tanto psíquica quanto organicamente. O que ocorre é que a associação foi perdida, mas apenas momentaneamente, no caso dos sintomas, porque o que escapa é o “ideocomplexo”, quer dizer, apenas a ideia daquele complexo. A emoção está  resguardada, como carga afetiva que continua "afetando" o corpo e a psique ao mesmo tempo.  

Jung (1971) sustenta que a reintegração de um complexo pessoal tem efeito positivo e terapêutico sobre a personalidade. No entanto, se ele continuar inconsciente, seu efeito será nocivo. Quer dizer que o complexo tem duplo aspecto. E mais, se houver invasão de um complexo vindo do inconsciente coletivo, ela significará uma ameaça perigosa e danosa para o indivíduo, quanto ao funcionamento do seu ego. Isto nos leva a crer no seguinte: se, por meio da conscientização, conseguirmos desmanchar o complexo no processo analítico, encontraremos sempre o arquétipo correspondente a cada complexo, por exemplo, o arquétipo do Herói, no caso de um indivíduo portador de complexo paterno, ou mesmo o arquétipo do Curador-Ferido, no caso de um portador de doença psicossomática.

Os antigos conceitos sobre a doença, descobertos por Méier (1999), analista junguiano, indicam que a doença era vista como castigo ou punição dos deuses, por erros e pecados cometidos, ou como sacrifício aos deuses. Já na cultura afro-brasileira, esta moléstia é vista como a simples manifestação de uma divindade, sem o cunho patológico (Salles,1997),  significando que aquele deus deve ser cultuado. Essas são simples manifestações do inconsciente coletivo.

Em nossas investigações clínicas, observamos que inúmeras vezes as pessoas usam a doença em benefício próprio, por exemplo, quando precisam descansar ou parar suas atividades e não sabem fazê-lo de outra forma. O homem civilizado não costuma saber ouvir seu corpo, segundo suas necessidades, por isso ultrapassa sempre seus limites. Entendemos que isso seja uma forma de reagir culturalmente valorizada, que está, por assim dizer, registrada em nosso inconsciente coletivo. De acordo com essa idéia ficamos doentes quando fazemos algo que entra em desacordo interno, dependendo da  idéia do pecado ou do erro cometido. O castigo parece estar sempre associado com os erros do passado; a doença seria, portanto, uma forma de se redimir. Por sua vez, o sacrifício estaria associado ao investimento no futuro.

A doença, assim, está relacionada à tarefa do Herói, enquanto Arquétipo, que pode estar também a serviço da estruturação da psique. É nesse  sentido que estamos abordando o homem comum, como um herói por si mesmo, dentro da simples complexidade do seu cotidiano. Dessa forma, a doença não seria uma recusa à saúde e nem a ausência de saúde, mas algo produtivo. Neste caso, o inconsciente produz sintomas, e isso já significa algo em si mesmo, que pode ser uma estratégia para parar, respirar, forçar uma mudança de ritmo (que o indivíduo não consegue por outros meios), ou provocar uma transformação. A exemplo do estresse, considera-se hoje toda a gama de doenças que dele advém, simplesmente para descansar, dar uma “paradinha”. O doente passa a se permitir prazeres ou liberdades que não se permite normalmente. Tudo isto para resolver ou decifrar o sentido da doença, na própria vida e se transformar, sucumbir de vez ou continuar o enfrentamento.

Podemos pensar a doença, então, como o escudo do Herói cotidiano para se defender de dores, as quais, ao serem decifradas, estarão operando a favor da vida. Neste caso, a doença funciona como defesa que impede o indivíduo de enfrentar os conflitos, também o impedindo de reconhecer seus conflitos maiores e se transformar com a assimilação do novo conhecimento.

Vista também como espada, a doença deve ser compreendida, como já foi dito, como uma forma de transformação no processo de individuação, ou seja, uma oportunidade de alargamento da consciência. A atualização dos Arquétipos do Herói e do Curador-Ferido, ou mesmo qualquer outro, auxilia nesse alargamento, relacionado aos arquétipos da individuação. Nesse caso específico da relação do indivíduo com a doença, a atualização desses dois arquétipos promove a transformação e o alargamento da consciência.

Saúde e Doença: As Duas Faces da Mesma Moeda.

Saúde e doença são, ambas, parte de um mesmo processo, assim como a morte faz parte da vida e o sofrimento também é parte da felicidade. Quando nos referimos à trajetória do Herói, temos consciência tanto da sua jornada brilhante como do seu fim trágico. Mas, ressaltamos que, tanto um fim como o outro, estão a favor da consciência na nossa abordagem.

Historicamente, observamos que o desenvolvimento ocidental recente enfatizou em excesso o pensamento abstrato e racional (Whitmont, 1969). Dessa forma, preocupou-se, predominantemente, com a utilização prática de objetos e de necessidades externas, culminando, em nossos dias, no positivismo orientado para o fato e para a lógica. Negligenciaram-se, em grande parte, os aspectos emocionais e intuitivos do homem, ou pelo menos, esses ficaram relegados a uma posição de menor importância. A capacidade de sentir e de intuir não receberam valor moral adequado, isto é, a capacidade de vivenciar um relacionamento consciente com emoção - que é um impulso ou uma força autônoma - e a capacidade de perceber, por meios que não sejam os nossos cinco sentidos, ficaram relegadas aos românticos ou místicos. Os sentimentos são, atualmente, considerados algo dispensável e as intuições não são consideradas "reais", como se fossem secundários em nossas vidas. Assim, deixamos de observar o que está a olhos vistos: que se adoece, chamando a atenção para a quantidade, a qualidade ou a intensidade de afeto experimentado. Essa desvalorização e negligência tradicionais em favor da razão voltada para o mundo exterior, forçaram o homem ocidental a deixar de cultivar adequadamente métodos conscientes de orientação “(...) no mundo psíquico interior, das emoções, ethos e significado: pois o que não é conscientemente desenvolvido permanece primitivo e regressivo e pode constituir-se em ameaça" (Whitmont, 1969, p.16).

Acreditamos que a maioria dos nossos contemporâneos não seja capaz de reconhecer, em si ou nos outros, as respostas de intuição ou de sentimento. Em especial a nossa cultura brasileira, sul-americana, atualmente, talvez devido à grande influência norte-americana, é conseqüentemente, muito materialista. Devemos ressaltar que, já as culturas com influência europeia, embora extremamente desenvolvidas, aproximam-se das práticas mais primitivas. As pessoas conservam os hábitos mais relaxados e uma capacidade de se relacionarem com o tempo, o que para nós soa "como antigamente". Talvez isso se deva ao fato de que estas culturas perderam muitas coisas com as guerras e autodestruições. Assim, após se reconstruírem, permitiram-se, também saberem a importância de alguns valores. Em vista disto, tudo indica que parece necessitarmos perder, para realmente valorizarmos o que temos.

Observamos, no consultório, a dificuldade inicial de diferenciar sentimento de pensamento que têm as pessoas. O indivíduo típico de hoje não consegue descobrir uma saída para seu estado emocional desequilibrado, pois as mais intensas experiências podem parecer insignificantes.

Estamos vivendo, em nossos dias, claramente, uma invasão de novas doenças. O estilo de vida que prevalece facilmente promove o estresse, atingindo, em cheio, o funcionamento do sistema imunológico, o sistema de relação do indivíduo com o meio e com o outro (Mello Filho, 1992). É impressionante como a era da informatização e globalização mostra que é a relação do homem consigo mesmo, com o outro e com o meio que o adoece. Poderíamos citar: as doenças do sistema imunológico, as autoimunes, as depressões, as neuroses, etc.

Hoje, temos a tranqüilidade de poder afirmar, devido à grande quantidade de pesquisas no setor, que a intermediação dos sistemas endócrino e imunológico se faz por meio do hipotálamo. Essa descoberta possibilitou o estudo da interação dos três sistemas, nervoso, endócrino e imunológico, considerados partes do tripé homeostático, tão importante na compreensão da maioria das doenças (Mello Filho, 1992). Portanto, a desorganização da vida coletiva e os problemas pessoais, cada vez menos resolvidos por falta de tempo ou espaço, indicam uma mudança nos meios naturais de cuidarmos da saúde e da doença. As doenças alérgicas (respiratórias e de pele), infecções, neoplasias, autoimunes (artrite reumatóide, o lúpus eritematoso sistêmico, a esclerose sistêmica progressiva, etc.) são exemplos que tornam impossível negar a ocorrência de fatores ligados ao estilo de vida, como concorrentes em sua etiologia.

Ao que parece, perdemos nossos mecanismos reguladores, não sabemos mais parar para descansar sem culpa, conversar na porta da casa no fim do dia, contar nossas mágoas sem desconfiança, sem medo de competição. Mandatos do tipo "tempo é dinheiro", "vence quem cedo madruga" parecem imperar sobre outros mais relaxados, ligados ao tempo e ritmo natural da vida, como "devagar e sempre", “o apressado come cru”. A competição instaurou uma nova cultura, a ordem vigente é “trabalhar sem descanso”, não perder tempo, não confiar e “levar sempre vantagem em tudo”. Assim, perdemos o jeito de brincar, dançar, rir, pular, sentir, cantar, principalmente depois que nos tornamos adultos. E o que é pior, especializamo-nos como seres civilizados; em nome de nossa civilização reprimimos em nós o que tínhamos de mais natural e humano. Não contentes, vivemos reprimindo, em nome da manutenção de uma “ordem social”, os outros também e principalmente as crianças. Enfim, deixamos de fazer coisas que são "normais" ou "naturais" na infância, mas que, no fundo, são apenas próprias de pessoas felizes. Teríamos apenas ficado sérios? Ou algo se rompeu com a nossa humanidade?

Quando perdemos os nossos mecanismos reguladores, estamos perdendo também a comunicação consciente-inconsciente. Estamos perdendo a oportunidade de estar em contato com o Self, o Si-Mesmo e atualizar os arquétipos do inconsciente coletivo. O que não acontece em determinadas culturas que não valorizam extremamente o racional, precipitando a unilateralidade da psique.

Para Quê Serve a Doença?

O que apresentaremos agora será um resumo do resultado da pesquisa em sala de espera de consultórios médicos feita para a dissertação de mestrado de Silveira (1997). Esse trabalho motivou o tema do doutorado, conforme esclarecemos anteriormente.

Ao escutar um de nossos sujeitos, pudemos pensar a gastrite como  um esforço constante, resultando numa superprodução de ácido ou suco gástrico, assim, o excesso acaba  ferindo. Os sintomas e a forma como estes são descritos pelos doentes são claros para o bom escutador. Isso nos remete ao que Ávila (1997) concluiu sobre a linguagem doença, vista como hieróglifo corporal, que tão nitidamente aparece na fala do nosso colaborador: - "Ah! Quero descobrir, quero me curar. Ah! Quero me curar, quero ir até o fim, quero descobrir o que é que pode ser isto. Uma gastrite ou um começo de câncer? Nem que o meu fim ‘tá perto’, mas eu quero saber o que é que pode ser isto, o que é que pode estar me prejudicando (...)  (...) Eu quero que a médica me diga o que é essa dor de estômago”.

O indivíduo doente quer um parceiro que escute o que ele tem e que o ajude a decifrar essa linguagem apresentada pelo seu corpo como signos corporais. Ele, em seu discurso, tem todas as respostas, como pudemos constatar também nos casos que acompanhamos. Desta forma, o colaborador é o receptor e o primeiro tradutor das mensagens enunciadas através de questões subjetivas que precisam ser interpretadas por alguém especializado. Assim, por meio desta relação, ele tem a oportunidade de atualizar o Arquétipo do Curador-Ferido. O papel do médico, nesse caso, seria não só atender à demanda explícita de tratar a dor de estômago, mas ajudar a decifrar o que é que ele tem, além da gastrite ou do câncer.

O que significa, naquele momento, o medo ou o desejo de morrer? Observamos que, além da conformidade com os significados de castigo e punição já estudados por outros autores (Méier, 1999), foi claramente observado que a doença também atualiza esses significados, quando, ao falar sobre o que pensa da sua doença, o indivíduo faz uma revisão de sua vida. Estas reminiscências passam inevitavelmente pelas culpas, atualizando, portanto, o significado de castigo ou punição. É o que pudemos comprovar no caso da gastrite: nosso colaborador fez uma espécie de confissão de possíveis erros cometidos no passado, mostrando a doença como conseqüência desses erros (Eu até hoje, me arrependo, no caso, de muita besteira que eu fiz).

É nessa confissão que está a participação do doente, entregue, mostrando o seu escudo.  Aos escutadores é dada a chance de fazer o herói “cravar a sua espada”, trazendo para a consciência o significado que está ali para saber. Não é só do diagnóstico que estamos falando, já que o doente oferta ao médico, a doença e o diagnóstico, como diz Balint (1988), mas, além, daquilo que promove a conscientização e que pode ser incorporado à sua personalidade.

É na revisão, ao falar para o médico, que ele se conscientiza da sua batalha ou trajetória, de tudo que já fez na vida, dos aspectos positivos e negativos, do que deixou de fazer, dos seus sonhos não realizados e do por que não conseguiu realizá-los. A parada que é obrigado a fazer, em nome da doença, é a chance de se perguntar para quê serve tudo isso e de incorporar na consciência o novo significado que poderá mudar o sentido das coisas. Conclusões do tipo “hoje em dia eu não durmo fora de hora”, “não uso mais veneno”, “não bebo mais daquele jeito” ou “não arrisco tanto a vida como antes”. Da sala de espera até o consultório do médico, os dois arquétipos (Curador-Ferido e Herói) estão mobilizados ou constelados,  prontos para serem atualizados e assimilados pela consciência ou para voltarem às malhas do complexo ideo-afetivo, de cujo núcleo emergiram.

Mostramos até aqui que a doença funciona como uma linguagem, mas uma linguagem simbólica, um material simbólico. É como o conteúdo de um sonho ou qualquer outra forma de expressão para  canalizar nossa energia vital (libidinal) de forma progressiva ou regressiva. Enquanto essa energia ou estes símbolos estiverem presos ou associados nos complexos inconscientes, permanecerão impedindo o curso normal de nossa libido e estarão atuando ainda como um escudo ou defesa.

Se, por acaso, o doente está fugindo, esquivando-se, se não tem condições de encarar seus conteúdos, é também uma espécie de escolha que poderá ser feita. Nessa batalha, a doença poderá vencer, ou encontrar espaço para se instalar com todo seu poder. Como foi dito, sabemos que um dos fins que esperam o Herói é a morte. Isto faz parte de sua trajetória; só não morrem aqueles que se eternizam, isso é, os deuses. Essa é uma ferida de Asclépio, que herdamos enquanto humanos.

No caso do portador da gastrite, por mais que se tenha mostrado valente como herói invencível ou imbatível (no futebol, na natação, nos esforços para agradar o pai ou na idéia de que poderia descer da goiabeira de cabeça para baixo, porque a brincadeira estava fácil demais), teve o devido limite. O que queremos dizer é que algum acontecimento (lei) realmente o fez parar, seja o tombo da goiabeira que o fez parar a escola, o pai que não permitia que ele fosse jogador de futebol, o irmão que é visto como o preferido da mãe, ou  o medo da morte. Diante de uma simples e pequena gastrite, cada uma destas coisas, mais a fragilidade diante da morte da avó, o coloca no seu devido lugar de humano e falível. Agora tem sua vida limitada, não pode beber a cachaça ou a cerveja de que gosta, comer ou dormir fora de hora, comer na beira do rio ou galinhada e carne de porco das ceias. Definitivamente, não pode fazer o que fazia e isto inclui "(...) sair sem rumo,  me divertir com os amigos. Agora, com a vida de casado, não posso  fazer o que quero,  faço  sempre as mesmas coisas(...)" (Silveira, 1997). É daí que podemos constatar sua culpa do que já fez e de seus desejos, hoje insatisfeitos.

Ao escutarmos nossos sujeitos, ouvimos, insistentemente, que eles  querem que o médico escute e traduza a sua dor. Os médicos sabem disso, mas a maioria apenas faz rapidamente o diagnóstico e, então, medica. Nessa relação, vemos uma preocupação voltada apenas para remediar a situação.

Respondendo às nossas principais indagações feitas ao longo deste trabalho de pesquisa para a dissertação de mestrado (Para quê serve a doença?), concluímos que há um significado da doença na vida do indivíduo quando esta se apresenta ou ocupa um lugar importante no contexto do dia-a-dia desta pessoa, definindo estruturas e metas. Sentindo-se mal, o doente vai em busca de ajuda de alguém que o escute e o auxilie a encontrar uma saída. Desta forma, quando um especialista encontra o significado da doença na vida de cada indivíduo, ela pode funcionar como um símbolo estruturante da personalidade, definindo o sentido ou a direção da vida. A partir daí, é possível encontrar, no discurso dos doentes, manifestações da imagem arquetípica do Curador-Ferido, levando sempre em consideração a bipolaridade inerente ao arquétipo que atua no eixo Ego-Self.

Levando em conta os nossos sujeitos, encontramos evidências para crer que a doença estará sempre ligada a um complexo materno e/ou paterno, ou, ainda, aos dois, o que podemos chamar de complexo de Édipo. Em função disto, vimos a doença como símbolo estruturante no processo de individuação. Em meio a esta relação, podemos identificar as marcas típicas dos ciclos matriarcal, patriarcal e de alteridade.

Podemos, enfim, concluir que a direção conferida à vida pela doença é dada na medida em que o significado é encontrado. Entendemos, assim, que é para isto que serve a doença, para “visualizarmos” o que pudermos sobre nós mesmos (sentido da vida), suportando o quanto pudermos desta descoberta ou visualização Algumas pessoas querem viver, então pagam o preço da vida. Outras querem evitar a morte, então pagam o preço da morte. A escolha é de cada um (Alvarenga,1988).

REFERÊNCIAS

Alvarenga, W.: Bola de Gude, Poesias e Toques, Org. Evandro de Castro, Nova Lima, M.G., 1988.

Ávila, L.A., Doenças do corpo e doenças da alma: investigação psicossomática psicanalítica, São Paulo, Escuta, 1996.

Balint, M., O Médico, seu paciente e a doença, trad. Roberto Musachio, São Paulo, Livraria Atheneu, 1988.

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Jung, C.G.,1917, Estudos De Psicologia Analítica, Obras Completas, vol. VII, Ed. Vozes, Petrópolis, 1971.

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Meier, C. A. Ancient incubation and modern psychotherapy, Evanston,  Northwestern University Press, 1967.

Mello Filho, J., (e colaboradores) Psicossomática hoje, Porto Alegre, Artes Médicas, 1992.

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Salles, C. A. C., A individuação, São Paulo, Imago, 1995.

Silveira, D. A., A Doença Como Símbolo De Transformação, Significados e Sentidos da Doença na Vida do Herói Cotidiano. Dissertação de mestrado Puc Campinas, 1997.

Whitmont, E. C., A busca do símbolo. Conceitos básicos de psicologia analítica, trad. Eliane Fittipaldi Pereira e Kátia Maria Orberg, São Paulo, Cultrix, 1969.

*Artigo extraído da Tese de Doutorado:“A descoberta dos Significados da Doença e Processo de Cura: Um Estudo Fenomenológico”, PUC Campinas, SP, 2003.

 

Denise Amorelli Silveira

Docente Unifenas. Doutora em Psicologia – Psicologia como Profissão e Ciência pelo Centro de Ciências da Vida, PUC Campinas. Analista do Instituto de Psicologia Analítica de Campinas, Filiado a AJB e IAAP – Internacional Association of Analytical Psychology – Zurique – Suíça .

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