Resiliência:

Quando se Escuta o Chamado da Alma

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"Siga sua bem-aventurança até lá, onde há um profundo sentido do seu ser, lá onde seu corpo e sua alma querem ir. Quando você alcançar essa sensação, fique aí e não deixe ninguém arrancá-lo desse lugar. E portas se abrirão onde você nem sequer imaginava que pudesse haver algo."(Joseph Campbell)

Quem nunca se perguntou “para que” tantas tempestades quando tudo parecia estar tranquilo? Para que existe a dor? Por que não desistimos? O que é essa fortaleza interior que nos impulsiona à superação frente às adversidades?

Chamamos de “resiliência” a capacidade de sermos sensíveis frente às adversidades. Resiliência é uma palavra inglesa (resiliency, resilient) proveniente da Física, que se refere à propriedade dos corpos elásticos de recobrar sua forma original, liberando energia quando são submetidos a uma força extrema. É sermos como o metal que sofre o calor do fogo, deforma-se e então é capaz de refazer-se e reconstruir-se. Em outras palavras, é poder encarar a dor como uma possibilidade de construção de novas bases, uma transformação e esperança depois de vivenciar o sofrimento.

Uma metáfora que ilustra a questão da resiliência é o Livro de Jó, da Bíblia, em que o próprio Jó é provado e sofre de todas as formas possíveis, perdendo sua família, sua riqueza e sua saúde. Ao sofrer na pele a dor, foi possível que ele se tornasse consciente de sua existência e passou a refletir a partir de uma nova percepção de mundo, uma nova consciência, um novo conjunto que Jung chama “Deus”. Esta nova consciência que o moveu na direção de sua superação.

Dentro de cada um de nós reside uma força transformadora, um herói adormecido que, diante de um obstáculo ou de uma “prova de fogo”, tem duas opções: sucumbir ou seguir o chamado da alma buscando novos significados para a vida. A busca de novos significados, para a Psicologia, é denominada resiliência. São consideradas pessoas resilientes aquelas que passaram por eventos com presença de sofrimento, mas se adaptaram positivamente frente às situações adversas, encontrando caminhos para a reconstrução de suas vidas (PALUDO, 2005).

O herói enquanto arquétipo presente em nossas vidas, especialmente em momentos tempestuosos e difíceis (perda, luto, separação, etc) inicia sua jornada saindo de um espaço externo e interno conhecidos em busca de algo maior e, desta forma, enfrenta e supera dificuldades. O herói é a metáfora do ser resiliente, que aceita o chamado e a prova de fogo. É inevitável que a descida à escuridão da psique seja repleta de renúncias e sacrifícios, porém o herói retorna transformado ao seu ponto de origem.

Para CAMPBELL (1992), sempre que seguimos o chamado da alma, que buscamos o preenchimento, que saímos em busca do lugar onde nos sentimos inteiros, estamos tomando o caminho dos heróis.

Talvez seja justamente o momento tempestuoso que nos permita contemplar a vida humana e perceber que temos um potencial a ser desenvolvido, independente das limitações que a Vida às vezes nos impõe. É poder enxergar Vida em meio à tempestade. A resiliência consiste não apenas na auto preservação diante de situações difíceis, mas também num posicionamento positivo, apesar das dificuldades. É escutar e aceitar o chamado da alma. Não é apenas “sobreviver”, mas encontrar forças internas para a “reconstrução interna”.

Trata-se de uma dimensão espiritual, pois transcende o que nos é conhecido e possibilita-nos experimentar a liberdade e desprendimento de nós mesmos. Somos capazes de descobrir a dimensão espiritual apenas quando a buscamos. E geralmente a busca surge em um momento de dor e sofrimento. A dor, antes vista como vilã, convida-nos à reflexão e nos impulsiona a mudanças nunca imaginadas.

A dor não deixa de ser uma morte. “Morte” aqui entendida não como o fim em si, mas uma possibilidade latente, a “morte simbólica” que implica uma passagem ou mudança para outros níveis de maior consciência e entendimento, de auto descoberta e transcendência – a jornada heróica do processo de Individuação.

Não dá pra SER pela metade, assim como não dá para VIVER pela metade. Encarar esse processo como uma constante auto descoberta, faz brotar a esperança e nos torna inteiros para a Vida.

 

Referências Bibliográficas:

CAMPBELL, Joseph. O Herói de Mil Faces. São Paulo: Cultrix, 1992

PALUDO, S. S.; KOLLER, S. H. Resiliência na rua: um estudo de caso. Revista Psicologia: Teoria e Pesquisa. Brasília, v. 21, n. 2, maio/ago. 2005. 

Sugestões de leitura:

FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Editora Vozes, 1991.

YOUNG-EISENDRATH, Polly. The Resilient Spirit: Transforming Suffering Into Insight And Renewal. Perseus, 1996  (disponível também em espanhol)

 

Erika Gonçalves Cardim

Psicóloga - CRP: 06/65061  

Especialista em Psicologia Analítica (Junguiana) 

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