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“Cisne Negro”: Um Convite à Reflexão

Por Erika Gonçalves Cardim*


 

“A totalidade não é a perfeição, mas sim o ser completo. Pela assimilação da sombra, o homem como que assume seu corpo, o que traz para o foco da consciência toda a sua esfera animal dos instintos, bem como a psique primitiva ou arcaica, que assim não se deixam mais reprimir por meio de ficções e ilusões. E é justamente isso que faz do homem o problema difícil que ele é”. (Carl G. Jung)

 

 

O último filme do diretor Darren Aranofsky - Cisne Negro (Black Swan) veio para cumprir o papel a que se dispôs: ao mesmo tempo que nos induz a um estado de tensão, é capaz de nos fascinar pela beleza ímpar que merecidamente rendeu à obra 5 indicações ao Oscar de 2011 e a incontestável premiação de Natalie Portman como melhor atriz.

 

Muitos de nós, psicólogos ou não, fomos atraídos às salas de cinema não apenas por reverência à sétima arte e para contemplar mais uma obra prima do cinema. Muito além disso, fomos atraídos pela riqueza simbólica, pelo mergulho em questões mais profundas, pelos caminhos tortuosos pela busca de sentido, seja através da razão ou por meio da insanidade.

 

“Cisne Negro” chega como uma autêntica aula de Psicologia Analítica Junguiana que merece ser discutido não apenas em breves linhas, tal como tento fazer agora (e correndo o risco de ser sucinta demais). É o tipo de filme que merece discussão mais aprofundada dentro e fora das salas de aula.

 

Não tenho a pretensão de analisar detalhadamente a riqueza simbólica contida em “Cisne Negro”: já sabemos que a obra renderia muito mais que um simples artigo. Pensemos nela como um exercício para nossa reflexão, não reduzido a “caçar” aqui e ali os conceitos da Psicologia Analítica fundada por Carl Gustav Jung, mas sua análise como um continuum, uma totalidade altamente simbólica e rica em significados. Fica o convite à reflexão.

 

O LAGO DOS CISNES

 

O Lago dos Cisnes é um balé dramático do compositor russo Tchaikovsky. Sua estreia ocorreu no Teatro Bolshoi em Moscou no dia 20 de Fevereiro de 1877. O balé foi encomendado pelo Teatro Bolshoi em 1876 e o compositor começou logo a escrevê-lo.

 

O filme “Cisne Negro” traz uma nova versão de “O Lago dos Cisnes”. Ao longo da trama, dores físicas e psicológicas das pessoas envolvidas com a apresentação e principalmente da personagem Nina (Natalie Portman), bailarina que se prepara para dançar o Cisne Branco e o Cisne Negro, vão sendo mostradas ao público ao som de Tchaikovsky.

 

Ao longo do filme se descortinam os mais variados sentimentos humanos: medo do fracasso, inveja, ciúme, vingança, decepção, desespero, carinho, melancolia, tensão, alívio e êxtase.

 

O Cisne branco e o Cisne negro

Li alguns artigos junguianos sobre o filme que chegavam a estabelecer comparações com a alquimia: o Cisne branco representando a Albedo e o Cisne negro, a Nigredo.

 

Sabemos que, na alquimia, a primeira fase, ou "nigredo" é o estado escuro, de ignorância e indiferenciação. Durante esta fase há uma autêntica putrefação de antigos padrões habituais e aos poucos surge um novo estado no qual nossa verdadeira natureza se revela: a "albedo". Na albedo há a saída da escuridão das próprias sombras e se entra numa dimnesão da plena objetividade, em que o momento presente surge como a única realidade na qual vivemos.

 

Parece-me arriscado conceber o Cisne branco como a personificação da albedo: a persona de Nina, encamada pela Cisne branco, está muito distante de um confronto real com a sombra. Está longe de uma representação da albedo. Da mesma forma, o Cisne negro não me parece de todo um aspecto de nigredo um aspecto de ignorância sombria, tal qual a nigredo. É necessário lembrar da polaridade da Sombra, que contém em si não apenas elementos negativos , mas elementos positivos que podem em muito contribuir no processo de Individuação.

 

No filme, o Cisne branco representa a princesa Odete e coincide com a persona de Nina. Por esse motivo a protagonista apresenta maior facilidade em interpretar o papel: olhar doce, infantil, frágil e ingênuo: uma "princesinha", como o diretor a chama. É necessária inocência, graça, leveza. Nina se encaixa no papel do Cisne branco.


O Cisne negro, por sua vez, representa a feiticeira Odile: é um papel mais difícil, pois coincide com o lado sombrio que Nina nega existir nela mesma: uma mulher sedutora, violenta, maliciosa, malvada. É necessária malícia e sensualidade para desempenhar o papel. Lily (representada por Mila Kunis) é a personificação do Cisne negro.

Das relações

 

De fato existe uma amizade conflituosa entre Nina e Lily. Lily desperta o lado sombrio em Nina – veste-se predominantemente de negro, não tem cuidados com a alimentação, faz uso desmedido de drogas, bebidas e cigarro. Representa o lado sombrio de Nina e, consequentemente, representa uma ameaça de cisão do ego.  

 

A relação de Nina com sua mãe apresenta características favoráveis ao desencadeamento de uma psicose, pois caracteriza-se por uma relação simbiótica e ao mesmo tempo ambivalente. É a mãe cuidadosa e ao mesmo tempo tirana. É possível observar que Nina vive num mundo infantilizado e inocente, apesar dos seus 28 anos de idade. Esta realidade é representada em seu quarto cor de rosa, repleto de bichos de pelúcia. A mãe a veste como se fosse uma criança.

 

A DANÇA COMO ELEMENTO DE CONTINÊNCIA

 

A dança foi um elemento fundamental que contribuía para a estabilidade entre o inconsciente e o mundo exterior, fornecendo a Nina uma relação com o corpo que permitia a sensação de continência e limite necessários para manter-se em equilíbrio com a realidade. O ato de dançar também era uma forma de escoar o excesso de energia, uma possibilidade de dar forma e expressão à tensão interior, propiciando um mínimo de organização. Quando o nível de tensão foi superior a este mínimo de organização, vimos o rompimento do equilíbrio.

 

 

ANALISANDO ALGUNS ELEMENTOS

 

A Persona

Podemos falar do “Cisne branco” como uma representação da persona de Nina, que intermedeia as relações dela com o meio exterior, protegendo o ego das exigências do meio. No caso de Nina, notamos uma adaptação dessa persona, pois existe a identificação com o papel e a função de bailarina, assim como a exigência pela perfeição. Nina é a personificação da bailarina: delicada, bela, meiga e passiva.

 

O Animus

É representado pelo diretor da companhia de balé – Thomas Leroy (Vincent Cassel). Analisando o nome “Leroy”, vemos o simbolismo inerente ao personagem: “Le Roi”, ou “o rei” em francês. Ele representa uma figura forte e poderosa, um Animus com capacidade de destruir ou elevar a personagem Nina. Leroy é uma figura ambígua. Parece querer tirar proveito de Nina, apresentando um potencial perigoso. Ao longo da trama, foca seu interesse em despertar em Nina o seu melhor desempenho. Em meio a um jogo de sedução, mostra a Nina que o que ela tem a fazer é aprender a seduzir, enquanto ele mesmo a seduz. 

           

A Sombra

Lily possui todas as características que Jung chama de sombra. Seu nome, “Lily”, remete a “Lilith”, primeira esposa mitológica de Adão. Aparece nas mitologias suméria, mesopotâmica, hebraica e grega evocando imagens de “demônio feminino”, feminilidade obscura, desinibição e sexualidade.

 

Nina se sente ameaçada por Lily, já que esta possui todos os requisitos necessários para desempenhar o papel do cisne negro. Lily exala sensualidade que lhe é própria, entrando em conflito com conteúdos que também habitam a alma de Nina, mas que são inconscientes e reprimidos com o auxílio do protecionismo da mãe dominadora.

 

Várias obras exploram a relação do indivíduo com sua sombra. É inevitável recordar o personagem Gregor Samsa, da obra “A Metamorfose” de Franz Kafka, quando acordou pela manhã e se viu metamorfoseado num inseto monstruoso. Nina também vive sua transformação dramática em meio à dança, ao belo e à dor, que culmina em um não reconhecimento de sua sombra e, consequentemente, em um quadro psicótico. 

 

A questão do duplo

O duplo aparece praticamente em todo o filme, sendo marcantes as questões mãe/filha, Nina/Lily, cisne branco/cisne negro, no entanto o duplo mais marcante refere-se ao lado pueril e doce de Nina, contrapondo com seus aspectos agressivos e sedutores, de forma que Nina passa a ter medo de sua própria sombra.

 

 

Prenúncios da “cisão”

 

Nina é dominada pela figura materna, emocionalmente insegura e controlada pela mãe. Busca a perfeição que se reflete no controle excessivo da alimentação e do controle do corpo. A forma de contato mais íntimo com o corpo se dá por meio da automutilação por meio de arranhões. São impulsos que ela tenta conter: cortando e lixando suas “garras”.

 

Nina apresenta uma estrutura egóica frágil e evidente perfeccionismo, elementos que facilitam a ativação de uma constelação psicopatológica caracterizada por automutilação e alucinações visuais, auditivas e táteis. Neste momento percebemos a simbiose entre fantasia e realidade, assim como a simbiose entre mãe e filha.

 

Para desempenhar o papel de Cisne negro é necessário penetrar no lado sombrio. É preciso entrar em contato com a sombra e em tudo que nela habita. Estaria Nina preparada para esta jornada?

 

 

A difícil tarefa do encontro com a Sombra

 

A vida desafia Nina a encarar sua psique polarizada – a persona de menina frágil e sua sombra inconsciente-  mulher sedutora e agressiva.

 

O desafio, portanto, é que Nina possa ir de encontro à própria sombra. Quanto mais esta “fonte inesgotável” tornar-se consciente, menos ela irá dominar a personalidade de Nina. Se a sombra também é um depósito de energia instintiva, espontaneidade e vitalidade, fonte principal de nossa criatividade, a questão evocada é se a personagem conseguirá olhar para dentro de si e refletir honestamente sobre o Cisne negro que também habita sua alma.

 

Como a sombra é um arquétipo, seus conteúdos são carregados de afeto, agindo como entes autônomos  e capazes de dominar  o ego. Quando a consciência se vê em uma situação ameaçadora, a sombra se manifesta como uma projeção forte e irracional, positiva ou negativa, sobre o próximo. A projeção interna no meio externo pode ser observada pela presença de espelhos diante da protagonista em praticamente todo o filme. Chama muita a atenção a passagem em que Nina está diante de um espelho redondo, com vários outros ao seu redor. Remete a um “desdobramento”, uma cisão de sua imagem não apenas no sentido externo, mas também no interno.

 

Unindo os elementos de busca pela perfeição e tentativa de provar a si mesma e aos outros que é capaz de expor seu lado mais agressivo, a personagem não percebe que conteúdos inconscientes estão vindo a tona e, consequentemente, não percebe os limites entre sonho e realidade.  Esta “tempestade emocional” vivida pela protagonista envolvida pela música de Tchaikovsky é sentida também por nós, telespectadores, como um momento envolvente e dramático.  Estaria Nina sobrepondo sua vida ao enredo de “O Lago dos Cisnes”? 

 

De fato, a estrutura egóica frágil, associada ao controle materno e à emergente necessidade de confrontar-se com a sombra, desencadeia em Nina um surto psicótico em que, cada vez que ela se defronta com sua porção Odile, inconscientemente ela se pune por meio de mutilação física, apresentando alucinações auditivas, visuais e táteis (sentir plumas de cisne saindo de seu corpo). Em outro momento, Nina aparece lutando e matando Lily, sua rival, quando de fato estava agredindo a si mesma.

 

 

Processo de Individuação ou CISÃO do ego?

 

Quanto ao “Processo de Individuação”, é necessária muita cautela ao aplicarmos este termo em relação ao filme em questão. Há vários artigos disponíveis na internet que falam sobre o filme, correlacionando-o ao Processo de Individuação e relatando como a personagem alcançou o ápice de seu processo. É indiscutível que Nina tenha vivenciado uma jornada difícil e altamente simbólica, mas como podemos falar em processo de Individuação quando o ego fragilizado sucumbiu à cisão e fora devorado pelos aspectos inconscientes e sombrios?

 

Segundo Von Franz (1964), “A individuação é definida como o processo pelo qual o ser humano pode tornar-se um indivíduo, uma totalidade, ou seja, representa a unicidade interna (síntese). É um processo arquetípico que permite o surgimento lento de uma personalidade cada vez mais ampla”.

 

A individuação implica, portanto, em decisões éticas e vontade. “É como se existisse uma predisposição ou acordo internos que facilitam a emergência dos conteúdos arquetípicos à consciência para sua posterior elaboração e assimilação. A ética na individuação consiste numa acurada observância do ego, aos sinais (símbolos) provenientes do Self, bem como em ser fiel a eles” (Gorresio, 1997).

 

No processo de Individuação o ego é confrontado tanto com a realidade interior quanto exterior. O desenvolvimento ocorre quando o ego tem força para suportar a tensão entre os opostos, de maneira a atingir um equilíbrio dinâmico entre as instâncias inconsciente/ consciente e mundo interior/ mundo exterior.  A fragilidade do ego dificulta e/ou impede que este desenvolvimento ocorra, sendo difícil suportar a tensão e consequentemente levando à ruptura com a realidade.

 

Desta forma, podemos dizer que houve uma cisão justamente por Nina não dispor de um ego estruturado capaz de encarar sua sombra e integra-la. Caso houvesse esta estruturação egóica, o desdobramento desta história com certeza seria outro e não se daria por meio da cisão, mas pela integração dos elementos inconscientes e conscientes, ou seja, o autêntico processo de Individuação.  Vamos sempre lembrar que, no Processo de Individuação, o Ego é elemento fundamental.

 

“O ego é a chave fundamental para o processo de individuação, já que é necessária uma colaboração ativa de um ego consciente e capaz de tomar decisões responsáveis” (Gorresio, 1997).

 

“É o ego que ilumina o sistema inteiro permitindo que ganhe consciência e, portanto, que se torne realizado”  (Von Franz, 1964, p. 162).

 

 

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES

  Não por acaso muitos críticos nomearam" Cisne Negro” como uma obra onírica onde grande parte do conflito acontece na mente da protagonista e não na realidade.

 

Nina buscou ajustar-se à vida, ver sentido nela. De certa forma buscava alcançar algum tipo de redenção. Ainda que tivesse sentido a "perfeição" por alguns instantes, ao mesmo tempo isso lhe custou a sanidade.

 

A vida vivida por Nina não se restringe ao cinema. Pode ser vivida em outras áreas artísticas, diferentes tipos de profissão e até mesmo em nosso cotidiano. A crescente necessidade de aceitação e principalmente de status tem sido cada vez mais marcantes em nossa sociedade. As frustrações são apenas parte das consequências em carregar nas costas o sonho alheio ou a auto exigência desmedia, como pode ser visto no filme.

 

"Cisne Negro"  vai além do impulso violento e destrutivo que se descortina em cada cena. É um estudo sobre a mente humana e cabe a nós refletir sobre nossos próprios cisnes

 

 

Referências Bibliográficas

 

GORRESIO, Z. M. P. A ética da individuação: um estudo sobre a ética do ponto de vista da psicologia junguiana. Hypnos, v. 2, n. 3, p. 112 – 118, 1997

 

VON FRANZ, M. L. O processo de individuação. In: JUNG, C. G. (org). O homem e seus símbolos. 5ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1964

*Psicóloga, Especialista em Psicologia Analítica Junguiana - Unicamp

 

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